sábado, 17 de setembro de 2016

A solidão da mulher negra e o racismo cotidiano



Eu estava ali diboa quando resolvi buscar exemplos (ainda mais) próximos de um fenômeno que persiste, pouco discutido e, talvez, cada dia mais forte, que é o da preterição da mulher negra. Ou o “racismo sem racistas, seção: mulher” (fique a vontade pra nomeá-lo como melhor lhe aprouver).

Foi um trabalho simples, executável em dez ou quinze minutos, sem demanda de maiores esforços. Digno de quem anda evitando a fadiga, como eu. O trabalho consistiu, basicamente, em abrir a minha lista de contatos no whatsapp e quantificar os meus familiares e amigos com “estado civil” conhecido. Encontrei 21 homens comprometidos dos quais apenas 3 tinham esposas ou namoradas negras.

Informo que meu foco primordial eram os homens negros – porque sou capaz de apostar um rim como a eleita será branca a cada vez que vejo boa parte deles comprometida -, mas acabei por expandir a observação e contabilizando também os homens brancos e as mulheres lésbicas. Entre os homens, contei 9 negros e 12 brancos, já entre as mulheres lésbicas (3), todas eram brancas, assim como suas namoradas.

Talvez eu não tenha ficado satisfeita com o resultado e aí fui dar uma olhada no instagram. Usei os mesmos critérios (Tem namorada,companheira ou esposa? Quantas, entre elas, são negras?). Ali eu contabilizei outros 20 homens (excluídos os que existem em comum com a lista do whatsapp), dos quais apenas 2 tinham namorada/esposa negras.

Talvez eu novamente não tenha ficado satisfeita com o resultado, e, percebendo que eu seguia poucos famosos no instagram, resolvi dar um breve passeio pelas contas de algumas “celebridades”, pelo bem da observação. Dessa vez observei apenas os homens negros – cantores pop, atores, atletas. Eu gostaria que vocês chutassem o resultado dessa busca. Podia ter um, pra fechar certinho minha curva descendente, mas não. Dez, dos dez homens negros pesquisados, namoram ou estão casados com mulheres brancas.



Conversando com uma amiga a respeito disso, ela se perguntou “será que nenhum desses caras olha pros lados na turma de amigos e se pergunta “por que será que só tem branca aqui?” Eu penso que não. Não porque, sob uma lógica própria, todos ali estão obedecendo a um padrão. Os meus familiares e amigos no Whatsapp e no Instagram não me deixam mentir. Será a cor das parceiras afetivas uma escolha aleatória? Coisa apenas do coração? Resposta: não. NÃO é possível creditar apenas a um gosto pessoal a escolha por esposas e namoradas brancas.

Meus prezados, eu não quero dizer que vocês não têm direito a ter um gosto pessoal.

Eu estou dizendo que até a sua pessoal e intransferível preferência é moldada socialmente. Estou dizendo que, se eu te pedir pra fechar os olhos e imaginar uma mulher, essa mulher formada em sua mente será branca. Que se você vir uma mulher branca bonita, ela será apenas “bonita”, mas se quem você visualizar for uma mulher negra bonita, então ela será uma “negra bonita”. É que desde criança você foi acostumado a pensar no branco como neutro.

Os bonecos, as bonecas, os personagens dos desenhos que assistia, os apresentadores dos seus programas preferidos (de todas as idades), as propagandas de brinquedo, de carro, de margarina, de leite, de sabão, de sapato, de produtos de beleza (insira qualquer produto apto a ser objeto de campanha publicitária aqui)… Lembre também da sua paixão de infância, lembre das mocinhas dos filmes e das novelas.E lembre das namoradas que apresentou para seus pais. O que eu estou dizendo, finalmente, é que reduzir sua escolha ao mero campo do gosto pessoal, ignorando a construção social que o fez conceber o branco como o bonito, é, para dizer o mínimo, inocente. É esquecer desse caráter estrutural que o racismo tem.



(E antes que você venha enumerar os papéis de destaque que as mulheres negras vem ganhando na mídia, dê uma olhada no material que i)foi produzido há 30, 40 anos; ii) vem sendo produzido recentemente e volte aqui pra gente conversar um pouco sobre humor, sexualidade e reforço de estereótipos)

Eu sei que não estou dizendo nada novo nesta nota.

Apesar disso, é esse o exato ponto da conversa em que nos classificam como paranóicas ou dizem que“tudo agora é racismo”. Esse discurso da paranóia é emblemático e encontra guarida no mecanismo peculiar do racismo brasileiro, que consiste em transformar a vítima em culpado. Porque o racismo, na realidade, estaria na cabeça das pessoas que o apontam, que o veiculam como um problema a ser enfrentado. Dizer que “tudo agora é racismo” é demonstrar, no mínimo, desinteresse pela constatação de que a história desse país está fundada em racismo, e é justamente por não haver nada novo em objetificar mulheres negras e tratá-las como mulheres de segunda categoria que vocês não podem fingir que é só uma paranóia.



Racista não é só a jovem branca na TV chamando um jogador de futebol de macaco. Racistas somos nós, a cada vez que negamos espaço a discussões como essa ao argumento de que isto está superado, ou não é importante. Eu, aliás, queria ter poder pra observar o dia-a-dia de cada um daqueles que apedrejou a casa da torcedora do Grêmio, só para vê-los dizendo – no conforto de seus lares livres de preconceito – que um negrinho “se deu bem” ao vê-lo passear com sua namorada branca, que aquela menina black power é muito bonita mas deveria pentear o cabelo, que políticas públicas de cotas raciais são racismo reverso, entre tantas outras manifestações de racismo nossas de cada dia, a provar por definitivo o caráter difuso e estrutural da segregação racial em nosso país e revirando seus bolsos de pessoas de bem para encontrar onde é mesmo que o seu racismo se esconde.

Como não posso ir até lá, sigo lhes lembrando, daqui mesmo, quão hipócrita é vestir sua camiseta de “Say no to racism” e continuar adotando a comodidade da postura “neutra” ao invisibilizar toda a sorte de discriminações que acontecem bem ao seu redor – e com as quais você contribui – para apenas compreender como racistas aqueles, bem longe de nós, que espancam, xingam ou oferecem bananas.
texto de >  http://lugardemulher.com.br/a-solidao-da-mulher-negra-e-o-racismo-cotidiano/

A solidão tem cor - Solidão da mulher negra


As trajetórias das mulheres negras brasileiras são permeadas pela solidão, conforme denunciam ativistas e intelectuais entrevistadas pela Fórum. Esse fato está intimamente relacionado ao processo de escravidão e às suas consequências, sobretudo aos estereótipos associados a elas no imaginário social
Por Anna Beatriz Anjos e Jarid Arraes

No último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, dados sobre a mulher negra brasileira chamaram a atenção. O levantamento apontava que, à época, mais da metade delas – 52,52% – não vivia em união, independentemente do estado civil (veja os dadosaqui).

O quadro pincelado pelas estatísticas tem cores extremamente vivas para as mulheres negras brasileiras, que, de acordo com inúmeros relatos, sentem na pele os efeitos da solidão e do preterimento durante toda a vida. Há anos o movimento feminista negro aborda essa pauta, mas ultimamente, com a força das redes sociais, o debate tem se amplificado – sobretudo no tocante aos relacionamentos heterossexuais – e causado polêmica.

A discussão sobre afetividade da mulher negra extravasa os círculos de militância: ao longo das décadas, diversos intelectuais tocaram nessa questão em suas dissertações, teses e artigos, principalmente quando tinham como objeto de estudo as relações interraciais no Brasil. Exemplos são Thales de Azevedo, Florestan Fernandes, Elza Berquó, entre outros.

Mais recentemente, duas intelectuais negras têm se destacado na produção acadêmica sobre o assunto. Em 2008, a socióloga e professora da Universidade Estadual da Bahia (UNEB) Ana Cláudia Lemos Pacheco se tornou doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com a tese Branca para casar, mulata para f…., negra para trabalhar”: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia que, em 2013, foi convertida no livro Mulher negra: afetividade e solidão (Edufba). No mesmo ano, Claudete Alves obteve o título de mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) com a dissertação A solidão da mulher negra – sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo, que posteriormente se transformou no livro Virou Regra? (Scortecci, 2010). Ambas conversaram com a Fórum sobre seus trabalhos, os primeiros a focalizar a figura específica da mulher negra e a dar voz a ela.


Dados do Censo de 2010 atestam: mais da metade das mulheres negras brasileiras não vivem em união, independente do estado civil (Foto: Reprodução/Facebook)

Solidão, uma questão histórica

Antes de falar sobre a solidão da mulher negra é preciso, segundo Claudete Alves, olhar para a solidão de seu grupo étnico, que se inicia quando ele é “espoliado de seu habitat”, a África, e “destituído de seus meios de produção e de seu próprio corpo enquanto transformador de matéria-prima, de seus sentimentos e de seus afetos. Esse processo, que se configura em uma diáspora negra imposta, denota que tal ocorrência, dolorosa e traumática, afetou o caráter das relações sociais desse grupo social no Brasil e do seu processo de identidade cultural”, escreve a autora em Virou Regra?.

“Ao me debruçar sobre a historicidade da mulher negra, vejo que sua trajetória, a partir da ruptura diaspórica africana até a contemporaneidade, foi permeada pela solidão”, continua a cientista social em sua obra. No decorrer do texto, ela estabelece uma intrincada relação entre o quadro de solidão a que as protagonistas de seu estudo estão submetidas e o processo de escravidão no Brasil.

De acordo com Alves, as mulheres negras eram alforriadas antes dos homens, por estes “serem considerados elementos essenciais à produção agrícola”. “Essa condição excludente e de marginalização a que o homem negro foi relegado imprime um novo contorno à configuração familiar existente, fazendo surgir famílias matrifocais”, explica no livro. “Típicas do Novo Mundo, ao contrário das famílias poligínicas da África, sua característica básica é ser chefiada por mulheres, o que outorga ao feminino a condição de centralidade e autoridade na assunção da permanência e da guarda do lar, em contraposição à ausência definitiva ou flutuante da figura paterna.”

Somado a isso, observava-se, conforme Alves, ocorria “a existência de uma intensa liberdade sexual na vida masculina”, de forma que os homens negros mantinham outros relacionamentos além de seu casamento sem que houvesse “perda de regalias ou prejuízo social”. “Encontramos, assim, mulheres forras e livres, na sua grande maioria solitárias, muitas vezes mães solteiras, como eixo central de seus lares e que, por não terem casado, seja por escolha voluntária, seja por dificuldades sociais ou por preterimento do parceiro, não vivenciaram uma condição de acesso social ou de estabilidade amorosa”, completa, em Virou Regra?.

Gostos e escolhas são construções sociais

Os dados obtidos pelo IBGE revelam que a situação de solidão ainda acomete as mulheres negras, mais de um século após a abolição. Por que, ao longo dos anos, o cenário não se modificou?

De acordo com a antropóloga Laura Moutinho, professora do Departamento de Antropologia da USP (Universidade de São Paulo), no artigo Discursos normativos e desejos eróticos: A Arena das Paixões e dos Conflitos entre “Negros” e “Brancos”, nota-se “a existência de um padrão marital homogâmico na sociedade brasileira; um percentual relativamente baixo de casamentos ‘interraciais’ e, nestes, a predominância do par homem ‘negro/mulher ‘branca’”.

Analisando-se a afirmação de Moutinho, é possível concluir que, nas relações interraciais, são as mulheres negras as mais frequentemente preteridas pelos homens negros, que, conforme demonstra a antropóloga, subvertem a regra do “padrão marital homogâmico” e se relacionam fora de seu grupo étnico, com mulheres brancas. Isso também se comprova por números do último Censo, que indicam: “homens pretos tenderam a escolher mulheres pretas em menor percentual (39,9%) do que mulheres pretas em relação a homens do mesmo grupo (50,3%)”.

Aspectos demográficos podem representar um caminho para a compreensão desse quadro. “Quando se pesquisa, desde Elza Berquó, o mercado matrimonial, verifica-se que, no grupo branco, há um maior número de mulheres do que de homens. Então, pode-se dizer que há uma ‘sobra’. No grupo negro não, identifica-se um equilíbrio. Se não houvesse algum fato sociológico, não se constataria essa solidão no grupo negro”, analisa Claudete Alves. “A mulher branca, que é excedente em seu grupo, migra para o outro, e pelos fatos históricos acaba disputando em condição muito vantajosa no grupo em que há um equilíbrio.”

“Há uma tendência, enfatizada por Berquó, de o excedente de mulheres ‘brancas’ se unir ao excedente de homens ‘pretos’ e ‘pardos’. Tal tendência surpreende, pois ‘é de estranhar que justamente as mulheres pretas que contam com um excedente de homens pretos, exatamente na faixa etária mais favorável às uniões, acabem por ter menores chances de encontrar parceiros para casar. Nossa hipótese é de que o excedente de mulheres brancas na população deve levá-las a competir, com sucesso, com as pardas e pretas, no mercado matrimonial’”, escreve Moutinho em seu artigo.

O preterimento da mulher negra pelo homem negro é elemento frequente nas falas das personagens entrevistadas por Ana Cláudia Lemos Pacheco para sua tese de Doutorado. A socióloga ouviu, ao todo, 25 mulheres negras em Salvador, doze ativistas e treze não ativistas, todas pertencentes a setores da classe média e populares. Para realizar a análise de suas trajetórias sociais, selecionou dez – cinco ativistas e cinco não ativistas. “Eu diria que o triângulo que emergiu e foi muito recorrente nas narrativas das mulheres investigadas foi o formado por mulher negra, homem negro e mulher branca. Sobre homem branco pouco se falou, muito pouco, uma [vez] ou outra.”

“A rejeição é muito mais doída quando vem dos seus iguais; a mulher negra quer ser amada, ser feliz”, aponta a socióloga Eliane Oliveira, feminista, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros (NEIAB) da Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Penso que o homem negro precisa desconstruir o racismo não só no discurso, mas também nas suas práticas.”

A situação de vantagem em que a mulher branca se encontra em relação à negra no mercado matrimonial, sobretudo em relação aos homens pardos e negros, é evidente. “Isso é uma pista segura de que há a interferência social e histórica que termina também sendo um dos fatores que tira, para além de todos os outros direitos da mulher negra, o direito ao amor”, destaca Alves.


Segundo pesquisadoras, no mercado matrimonial, a mulher branca tem vantagem sobre a negra (Foto: Divulgação)

Para Pacheco, uma série de fatores contribui para que as mulheres negras sejam preteridas pelo homem negro. Eles estão, em sua maioria, conectados a aspectos históricos e culturais que habitam nossa sociedade. “Em nosso imaginário cultural, as características raciais e fenotípicas da mulher negra – considerando a cor da pele, as características do cabelo, a estética – estão o tempo todo associadas a estereótipos negativos”, avalia a socióloga. “Essas representações estão vinculadas não apenas ao imaginário social mais geral, mas também ao imaginário acadêmico, literário. Na música, nas imagens socialmente produzidas, o que sempre se destacou [em relação à mulher negra] são essas características, relacionadas a um comportamento sexualizado, quase que servil – e isso é a reprodução de uma concepção bem colonial, quase que a imagem reproduzida da mulher escravizada, que estaria, portanto, para servir ao outro, ao senhor. E a outra representação é a do trabalho, de como a mulher negra seria ‘pau para toda obra’, seria boa para o trabalho servil e doméstico, e não seria uma mulher com desejos, com possibilidades de construir uma afetividade, de ter projetos pessoais, familiares, de uma mulher que tenha a capacidade de pensar.”

A historiadora Karla Alves, ativista negra do grupo de Mulheres Negras do Cariri – Pretas Simoa, conta que a solidão afetiva apenas agravou os efeitos do racismo sobre sua autoestima, algo que sente desde criança, quando era discriminada pelos colegas do colégio e não encontrava, nem nos meios tradicionais de cultura,



tampouco nos conteúdos escolares, referências negras positivas e legítimas. “Isso provocou um estigma ainda pior: a solidão existencial que, naquele momento, não me deixava contar nem comigo mesma”, diz. “A solidão da mulher negra é, portanto, parte indissociável da formação da nossa identidade que o racismo nos impõe. Durante a juventude e vida adulta esta solidão é alimentada pelo desprezo daqueles com quem almejamos estabelecer um relacionamento amoroso, já que passamos a ser vistas somente pelo nosso sexo expropriado e hipersexualizado, principalmente através da mídia.”

Em contrapartida, a imagem da mulher branca, segundo Pacheco, está vinculada a “um comportamento mais condizente com uma expectativa de gênero mais tradicional, aquela que seria ideal para casar, para se manter um relacionamento, para ser mãe, enquanto a mulher negra não caberia nessa representação.” Tal privilégio tem nítida ligação com o padrão de beleza branco difundido como ideal em nossa sociedade, e que não apenas não contempla como marginaliza as características estéticas negras. Sob esse prisma, pode-se dizer que a mulher negra sofre opressões somadas: machismo e racismo.

Estudiosos das relações interraciais no Brasil desde os anos de 1930 discutem também o casamento entre homens negros e mulheres brancas como estratégia de mobilidade social. “(…) a mulher, além de propiciar um dado acesso social ao homem negro, funcionaria como uma possibilidade de escamoteamento de seu padrão fenotípico, conferindo invisibilidade à sua cor”, considera Alves em Virou Regra?. De acordo com a autora, um dos principais méritos de seu trabalho é ter provado que essa prática não ocorre apenas com homens negros que já ascenderam socialmente, como consequência desse movimento – a exemplo dos jogadores de futebol negros, que famosos e endinheirados, frequentemente constituem família com mulheres brancas –, mas se dá em praticamente todos os estratos sociais. Para comprovar essa tese, a pesquisadora visitou diversos espaços da cidade de São Paulo, nas periferias e no centro – teatros, casas de espetáculos, supermercados, maternidades, entre outros – e observou a proporção de casais inter e intraraciais nesses locais.

Diante desses símbolos tão fortes e difundidos em nossa sociedade, é impossível dizer que escolhas do campo afetivo e sexual sejam mera questão de gosto pessoal, plenamente desconectado do universo social em que o indivíduo está inserido. “Na relação com o outro, o desejo de envolvimento afetivo em busca do prazer é permeado pelos valores e ideais estabelecidos pelo contexto social. A manifestação do desejo e o estabelecimento ou não de vínculos amorosos são também determinados por concepções advindas de uma visão machista e racista”, atesta a professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Elisabete Aperecida Pinto, em sua tese de DoutoradoSexualidade na identidade da mulher negra a partir da diáspora africana: o caso do Brasil.

“É o que Sueli Carneiro já falou: nós, feministas negras, não estamos querendo controlar o relacionamento de ninguém. Nós queremos problematizar, porque é algo que tem nos atingido”, argumenta Pacheco. “O racismo é uma ideologia, uma crença que exclui. E não exclui só do mercado de trabalho, da educação, do campo do poder político; essas exclusões influenciam muito na hora da escolha [afetiva].”

“Sinto uma falta enorme de negros famosos que tenham uma defesa da causa negra nos espaços que ocupam na mídia. Mesmo no caso daqueles que fazem de seu trabalho uma forma de levantar nossa bandeira, percebo que na prática as coisas ainda se voltam para o previsível, ou seja, cedem ao padrão social de ter uma loira do lado”, observa Eliane Oiveira. “Muitos podem dizer que é uma questão de gosto, mas nós somos socialmente moldados, dessa forma, nosso gosto não é isento de manipulação ou imposição do que é belo, bom, seguro e desejável. Ora, se sofremos ainda hoje com a herança escravagista de que negra é para cama e não para o casamento, como pensar que o homem negro também não reproduz esse tipo de pensamento sobre ela quando o que mais vemos são eles se casando com as brancas?”, questiona.

Embora a palavra “solidão” seja normalmente associada a sentidos negativos, a professora da UNEB conta que, nos depoimentos que colheu, o termo foi sendo ressignificado – as mulheres negras, como protagonistas de sua própria história, transformaram sua dor em força. “O sentimento de solidão se traduziu em sofrimento, choro, desilusões amorosas e decepções. Mas, apesar desses processos de exclusão social, discriminação étnica e social, essas mulheres se empoderaram, muitas delas superaram desigualdades fundamentais – a questão da sobrevivência, por exemplo, social e econômica –, tornando-se chefes de família, criando seus filhos sozinhas e sem parceiros”, relata. “Há mulheres que se tornaram grandes lideranças do movimento social negro e alcançaram prestígio a ponto de se transformarem em lideranças de grande expressão nacional e internacional e ocupar grandes cargos políticos dentro da sociedade brasileira. E há mulheres que, por outro lado, se empoderaram através do trabalho, da ascensão social e de uma percepção com relação a essas desigualdades.”


Contra a imposição do padrão de beleza branco e pela valorização da estética negra, mulheres negras realizaram, em julho, a Marcha do Orgulho Crespo (Foto: Marcha do Orgulho Crespo 2015)

Consequências psicológicas

O preterimento e a solidão afetiva que atingem as mulheres negras podem causar a elas grande sofrimento psicológico e, por serem baseadas em valores racistas, podem gerar ainda o adoecimento físico. É o que explica a psicóloga Maitê Lourenço, também neuropsicóloga pelo Centro de Diagnóstico Neuropsicológico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e colaboradora do Grupo de Trabalho de Psicologia e Relações Raciais do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. “Dentro do processo cognitivo, palavras, gestos e ações são captados e processados pelo cérebro, formando assim a concepção daquela mulher sobre si mesma de uma forma deturpada”, avalia. Ela salienta que o quadro não se limita às mulheres heterossexuais – lésbicas e bissexuais também enfrentam esse fenômeno social, bem como as transexuais.

Segundo a neuropsicóloga, adjetivos pejorativos, como “feia”, “macaca” ou frases ditas por familiares, colegas e outras pessoas como “ninguém vai te querer assim” fazem parte do contexto diário das mulheres negras, gerando sentimentos de menos valia, baixa autoestima e introspecção. Com isso, pela violência do racismo, há possibilidade de que a depressão, ansiedade e outras doenças crônicas, como asma e fibromialgia, acometam essas mulheres.

“A humilhação social também é um dos sofrimentos psíquicos causados pela solidão da mulher negra”, pontua Lourenço. “Essa mulher sente-se humilhada por perceber que não corresponde ao que é esperado para sua idade, classe social, escolaridade e ambiente familiar. Timidez excessiva, irritabilidade, ansiedade intensa, hipertensão, depressão, obesidade, uso abusivo de álcool e outras drogas também são consequências, dentre muitas outras, do processo vivido por estas mulheres”, destaca.

Clélia Prestes, mestre e doutoranda em Psicologia Social pela USP e psicóloga do Instituto AMMA Psiquê e Negritude, também discorre sobre as implicações que a solidão afetiva pode acarretar para a autoestima das mulheres negras. “Desde o nascimento e ao longo do processo identitário, a autoestima é influenciada pelos referenciais coletivos de beleza, nos quais as mulheres negras praticamente não estão representadas, apesar da maioria da população brasileira ser negra. Como resultado, no imaginário social e em concepções pessoais, pensamentos e sentimentos que tratam a diversidade com hierarquia de valores, prejudicando drasticamente a forma como mulheres negras são vistas e, consequentemente, sua autoestima e relações afetivas.”

Em sua atuação profissional, Maitê Lourenço atende mulheres que relatam o quão difícil é o estado de solidão, pois muitas vivem suas vidas inteiras de maneira solitária. “No passado não muito distante de muitas famílias, assim como a minha, essas mulheres permaneceram cuidando das famílias de outras mulheres – brancas – que tinham em seus lares maridos e filhos. E por causa do machismo, patriarcado e do capitalismo, essas mulheres tiveram que ficar distantes de seus familiares por morarem nas casas onde trabalhavam, privando-as assim de também de construir seus lares e manter maior contato com outras pessoas, já que não puderam estudar, viajar e etc”, ressalta.

De acordo com a psicóloga, a necessidade de fugir desse quadro social e evitar uma vida solitária também torna as mulheres negras vulneráveis a relacionamentos abusivos. “A própria violência doméstica também pode fazer parte das estatísticas para pontuar o que acontece com as mulheres negras, pois muitas acabam se submetendo a relacionamentos abusivos para não permanecerem sós.”

No entendimento de Clélia Prestes, embora tantas pessoas sofram com as consequências do racismo, a “psicologia tem sido omissa e conivente” com relação a ele, “na medida em que não o enfrenta”. “Ao desconsiderar os marcadores sociais da diferença como raça, gênero, orientação sexual, geração, classe, entre outros, trata como universal seres que são diversos, desconsiderando suas especificidades e impondo de forma hegemônica características particulares de grupos dominantes.”

Para Lourenço, a mídia tem uma grande responsabilidade na perpetuação dos estigmas advindos de concepções racistas. “Venho acompanhando alguns comerciais, novelas e séries brasileiras e o que mais se vê são mulheres negras em funções subalternas e, quando há núcleo familiar para ela, há no máximo filhos, a mãe dessa mulher ou um irmão. O fato da mulher negra ser representada desta forma impacta também na identificação de meninas, mulheres e das outras pessoas de que a mulher negra tem somente esse lugar a ocupar, gerando assim sofrimento psíquico e mais obstáculos, que arduamente as mulheres negras vêm tratando de transpor”.

Embora a solidão afetiva tenha, muitas vezes, consequências devastadoras para a vida das mulheres negras brasileiras, Prestes destaca que elas “não ficam apenas expostas passivamente a quadros de vulnerabilidade e solidão, mas, enquanto reagem às adversidades e resistem às opressões, acabam se fortalecendo individual e coletivamente”. “Em minha clínica, nas atuações pelo Instituto AMMA Psique e Negritude, no ativismo (movimento negro e feminismo negro) e na pesquisa, pude observar a importância da identificação positiva e das redes de mulheres negras para diminuir os efeitos e mudar o quadro de solidão, potencializando processos de resistência, superação e resiliência”, conta.

(Ilustração de capa: Monica Stewart)





Amor Afrocentrado

Luh Souza é conhecida nas redes por sua atuação contra o racismo e por ser fundadora e moderadora do grupo “Amor Afrocentrado” no Facebook, onde homens e mulheres negras se reúnem para discutir questões relacionadas ao racismo, aos relacionamentos afetivos e, caso exista a oportunidade, encontrar pares com quem possam construir relações românticas.

O termo “Amor Afrocentrado”, que se refere aos relacionamentos entre pessoas negras, é usado há muitos anos, quando Souza começou a discutir o tema da solidão da mulher negra com amigos e companheiros de militância – logo seus debates deram continuidade em outra rede social, o Orkut, ainda em 2009.

O grupo do Facebook começou como um facilitador de encontros, pois Luh Souza ouvia amigos se queixando de que não conseguiam encontrar outras pessoas negras com quem pudessem se relacionar. “Então pensei: preciso fazer um ponto em que os solteiros possam se encontrar e vamos discutindo juntos nossos problemas”, relata. Até o número que contou, o grupo teve como resultado a quantidade de 60 casais, entre eles 3 se casaram e algumas crianças nasceram dessas uniões.

A intenção do grupo era discutir o assunto exclusivamente entre pessoas negras, como um debate interno; para Luh Souza, uma medida em parte para evitar polêmicas e acusações de “racismo inverso”, mas também como resultado do desinteresse de pessoas brancas. Segundo Souza, o debate, que tem mais de uma década de proposta, sempre tentou fazer com que os homens negros refletissem sobre o companheirismo e presença das mulheres negras em suas vidas, seja como mães, irmãs e avós, ou como companheiras que sempre enfrentaram o racismo e as consequências da discriminação racial lado a lado contra os homens negros. “Se fossem pra cadeia, estivessem internados ou na escola e até mesmo no caixão, quem sofre e derruba lágrimas são as mulheres ali. E quando cresciam, por que se recusavam amar uma mulher negra? Por que eles não podiam ser românticos com ela? Quando a gente consegue colocar essas questões todas juntas na cabeça deles, há uma transformação”, relata Souza.

Mas apesar da boa vontade e do trabalho totalmente voluntário, discutir sobre a solidão da mulher negra e tentar promover relacionamentos afrocentrados não foi uma prática fácil. “Claro que apareceram os homens pilantras tentando enganar as irmãs, casados, mas sempre que eu soube, tirei do grupo, bloqueei”, afirma. Depois de alguns desentimentos e preocupações, Souza decidiu não mais moderar o grupo, deu-se por satisfeita com os objetivos alcançados e passou a orientar os integrantes para que tivessem cuidado e responsabilidade ao conhecerem novas pessoas.




Mas os desafios que surgiram não são apenas aqueles que envolvem qualquer relacionamento humano: as polêmicas em torno do assunto passaram a crescer à medida que o tema ganhou visibilidade na internet.

Luh Souza interpreta esse quadro de polêmicas crescentes como um erro estratégico. Para ela, o tema da solidão da mulher negra deveria ser um debate restrito aos grupos que militam contra o racismo. “É desgastante ter de debater racismo com ‘não negros’ e igualmente desgastante debater solidão da mulher preta abertamente. Veja que eles estão pegando isso pra nos atacar, difamar pela rede, sendo que eles sabem que se casam entre brancos em sua maioria, só que para eles isso é normal. Agora, se formos levantar a questão, aí acusam-nos de racismo inverso. Um exemplo: quantos jogadores de futebol ou artistas brancos são casados com mulheres negras? Se o amor não tem cor…”, provoca.

No entanto, Souza faz questão de frisar que a crítica não é contra os relacionamentos interraciais em si. “O amor interracial vai existir sempre”, pontua. “O que discutimos é o racismo embutido em forma de relacionamentos amorosos. Se existe o amor entre as pessoas, por que existe o recorte racial dentro desse suposto amor? Qual a causa das mulheres brancas terem duas opções? Veja que o recorte racial existe até dentro de relações homoafetivas onde uma pessoa branca tem mais chances de encontrar seu amor do que pessoas negras”, questiona.

“Então a discussão não é, e nunca deverá ser, contra a miscigenação, mas contra a regra imposta pela Teoria do Branqueamento em que mulheres negras não merecem ser amadas, já que ela é preterida por todas as etnias”, declara. De acordo com Luh Souza, mesmo mulheres negras consideradas belas e inteligentes reclamam que são preteridas. “Há algo muito errado, muito mesmo. No fundo, a frase ‘amor não tem cor’ é igual a ‘somos todos iguais’. A palavra certa seria ‘amor’ somente. Se a sociedade precisou complementar a palavra ‘amor’ com a frase ‘não tem cor’ é porque precisam se justificar e, se precisam se justificar, é porque existe um problema aí que ninguém quer saber de rever, discutir. Inventam uma frase poética pra se conformar com ela e não resolver o que é preciso, igualmente ao ‘todos somos iguais’. Pronto, de posse da poesia contida nas frases, que se dane o resto. Vamos viver em um padrão sem respeitar o grito de quem está sendo excluído dentro da sociedade por ser diferente”, protesta Souza.

Para ela, o assunto precisa ser debatido e o desequilíbrio mostrado pelas estatísticas deve ser questionado. “Mas, uma vez que os homens já fizeram suas escolhas, estão casados com brancas e têm até filhos, não podemos interferir”, afirma.


Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas

A peça Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas, escrita por Cidinha da Silva, aborda a temática da solidão da mulher negra. Segundo a autora, o texto, escrito para o coletivo teatral negro Os Crespos, foi produzido com base em 55 entrevistas com mulheres negras “de diferentes perfis: presidiárias, universitárias, catadoras de material reciclável, trabalhadoras de salões de beleza, sambistas, estrangeiras, moradoras de rua, ente outras.”

“A solidão não era um tema. O tema era afetividade entre mulheres negras”, relata Cidinha. “À medida que o tema da afetividade entre mulheres negras era investigado, a solidão gritou, em certos momentos de maneira desesperada e desesperançada. A solidão emergiu como força telúrica das entrevistas e acabou por compor boa parte dos arquétipos construídos para as personagens.”

Texto > http://www.revistaforum.com.br/semanal/a-solidao-tem-cor/

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

COLORISMO: O QUE É, COMO FUNCIONA

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TEXTO DE http://blogueirasnegras.org/2015/01/27/colorismo-o-que-e-como-funciona/ 

O colorismo* ou a pigmentocracia é a discriminação pela cor da pele e é muito comum em países que sofreram a colonização européia e em países pós-escravocratas. De uma maneira simplificada, o termo quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer.

Ao contrário do racismo, que se orienta na identificação do sujeito como pertencente a certa raça para poder exercer a discriminação, o colorismo se orienta somente na cor da pele da pessoa. Isso quer dizer que, ainda que uma pessoa seja reconhecida como negra ou afrodescendente, a tonalidade de sua pele será decisiva para o tratamento que a sociedade dará a ela.

O colorismo dificulta e até mesmo impede completamente o acesso de pessoas de pele escura a certos lugares da sociedade, o que consequentemente dana ou impede o acesso delas à serviços que lhes são de direito, enquanto cidadãos brasileiros.

Apesar de se orientar na cor da pele, o colorismo no Brasil, apresenta uma peculiaridade; aspectos fenotípicos como cabelo crespo, nariz arredondado ou largo, dentre outros aspectos físicos, que a nossa cultura associa à descendência africana, também influenciam no processo de discriminação.

Mas por que ter a pele mais clara traz privilégios para a pessoa afrodescendente, se ela ainda assim não será identificada como branca? Porque ela, mesmo sendo identificada como “negra” pela sociedade racista, o que significaria que ela não poderia desfrutar dos mesmos direitos que uma pessoa branca, ainda assim é mais “agradável” aos olhos da branquitude e deve/pode por isso ser “tolerada” em seu meio. Esse é um aspecto muito importante no colorismo: a pessoa negra é tolerada, mas não aceita, pois aceitá-la seria reconhecer que a diferença é existente e que vencer o preconceito que se tem sobre essa “diferença” tenha que ser vencido.

Na relação branquitude-pessoa negra de pele clara o importante não é convencer-se de que a pessoa seja na verdade branca, mas sim conseguir ignorar seus traços negros a ponto de conseguir imaginá-la branca, a ponto de poder suportar sua presença que, por causa do racismo, é vista como intrusa.

Na nossa sociedade a tolerância do sujeito negro é construída através do mimetismo**. O exemplo mais comum de mimetismo é o de insetos, como o caso da borboleta caligo memnon, cujas asas abertas se parecem com o rosto de uma coruja. Essa espécie de “camuflagem” a protege de possíveis predadores e é uma estratégia de sobrevivência.

Para serem toleradas na sociedade racista e discriminatória, as pessoas negras viram-se forçadas a praticar o mimetismo para terem acesso a espaços dos quais sempre foram excluídas. Os alisamentos capilares também nasceram dessa necessidade de “camuflar” a própria presença, de tornar-se menos “perceptível” para a branquitude e assim garantir a própria sobrevivência.

O colorismo funciona como um sistema de favores, no qual a branquitude permite a presença de sujeitos negros com identificação maior de traços físicos mais próximos do europeu, mas não os eleva ao mesmo patamar dos brancos, ela tolera esses “intrusos”, nos quais ela pode reconhecer-se em parte, e em cujo ato de imitar ela pode também reconhecer o domínio do seu ideal de humano no outro.

É importante salientar que aceitar esse “favor” não é uma opção para o sujeito negro. Rejeitar esse “acordo” acarretaria na sua exclusão. Um exemplo é o de mulheres negras de pele clara que enquanto alisavam os cabelos, sofriam menor perseguição racial no local de trabalho, mas que depois de abdicarem desse processo passaram a ser discriminadas abertamente. O que acontece é que a negritude dessas mulheres não podia mais ser ignorada e a reafirmação dela através da estética negra passou a ser vista pela branquitude como uma ameaça, um sinal de insubordinação, que merecia retaliação e ou exclusão. No caso de mulheres de pele escura o abandono da estética branca pode significar a intensificação da exclusão social, da qual ela já vem sendo vítima inenterruptamente e em todos os espaços.

A presença de pessoas negras, cujos traços físicos são mais aceitos pela branquitude, em espaços que ela pretendia manter exclusivamente brancos, provoca a camuflagem do racismo ainda vigente na nossa sociedade.

Além disso, o colorismo cria a ilusão da inserção de toda a população negra, quando na verdade à população de pele escura é negada toda possibilidade de acesso. Uma pessoa de pele escura, será reconhecida como negra em todas as circunstâncias, a branquitude não reconhecerá nela traços com os quais possa se identificar e desse modo despertar sua empatia.

O colorismo contudo não é um problema exclusivo da interação entre a branquitude e o sujeito negro dos mais variados tons na sociedade, ele gera conflito também dentro da comunidade negra.

A tolerância do sujeito negro de pele clara pela branquitude (que privilegia, mas não o livra do racismo), cria por vezes uma rivalidade entre estes e os negros de pele escura, que têm que lutar por seu direito a mobilidade sem qualquer tipo de vantagem. Surge então, um sentimento de injustiça que pode intensificar a falsa ideia de que as pessoas de pele clara não seriam negras, já que têm o “mesmo” acesso e desfrutam da mesma liberdade de locomover-se em todos os espaços como as pessoas brancas. Esse acesso e tolerância levam também muitas pessoas negras de pele mais clara a duvidar de sua negritude, enquanto as pessoas negras de pele escura passam a entender suas vivências mais desveladas do racismo como uma reafirmação e prova da originalidade de sua negritude.

No campo afetivo, como o ideal dentro dessa hierarquia de cores e tons é atingir a branquitude e eliminar ou rejeitar a negritude, as mulheres negras estão ambas, tanto as de pele clara, quanto as de pele escura, constantemente expostas à rejeição.

No envolvimento afetivo da mulher negra de pele clara com um homem, ela será vista como segunda opção ou nenhuma em detrimento de uma mulher branca, e no caso da mulher negra de pele escura, ela não será nem mesmo uma opção ou será a terceira opção, depois da mulher negra mais clara e da mulher branca, nessa ordem. Isso ocorre porque na nossa sociedade patriarcal a mulher continua sendo considerada como propriedade do homem e como parte dos bens, com os quais ele define sua posição na sociedade; e dentro da nossa sociedade racista a mulher negra não traz status algum.

No caso do homem negro as restrições ligadas a mobilidade e inserção permanecem idênticas às das mulheres negras, diferenciando-se somente nas questões de gênero. Através das relações afetivas, porém, o homem negro não importa de que tonalidade, consegue inserir-se em espaços previstos para a branquitude através do envolvimento amoroso com uma mulher branca. Isso explica em parte, a preferência majoritária de homens negros que ascenderam financeiramente pelo envolvimento afetivo com mulheres brancas, de preferência aquelas, cuja aparência reforcem ao máximo o ideal de beleza eurocêntrica na nossa sociedade.

O machismo na nossa sociedade define que o “valor” de uma mulher depende de sua “beleza”. Por causa do racismo a mulher negra encontra-se em constante desvantagem em comparação à mulher branca, já que a branquitude entende que ser belo é ser branco. O colorismo é nesse aspecto, um agravante dessa discriminação, pois estigmatiza a imagem já carregada de estereótipos da mulher negra, dividindo-as em negras que servem para serem desejadas ou hipersexualizadas e as que não merecem ser desejadas, criando assim, uma situação de “exclusão da exclusão”. Nós vemos aqui uma comprovação do título do texto de Alice Walker que introduz o termo colorismo “Se o presente se parece com o passado, como será o futuro?” (“If the Present Looks Like the Past, What Does the Future Look Like?”), já que vemos ainda hoje, que a sociedade brasileira ainda considera que, “a branca é para casar, a mulata para fornicar e a preta para trabalhar”.

Seguindo esse pensamento, o homem negro, mesmo sem ascensão social encontra-se em uma posição privilegiada em relação às mulheres negras, pois ser negro não o impede de relacionar-se afetivamente com mulheres negras, enquanto a mulher negra por causa do machismo e por causa do racismo encontra, cada vez menos, quem com ela queira relacionar-se. Vemos acontecer no Brasil, uma situação que Melissa Harris-Perrydescreve em seu livro “Irmã Cidadã – Vergonha, Estereótipos e Mulheres Negras na América” (“Sister Citizen – Shame, Stereotypes and Black Women in America“), no qual a autora afirma que “a solidão na vida da mulher negra é algo que se inicia na infância com o abandono paterno e se estende por toda vida através do preterimento nas relações amorosas”.***

Essa pequena introdução dos efeitos do colorismo nas vidas das pessoas negras no Brasil mostra como ele afeta horrendamente a autoestima, os relacionamentos afetivos e a exerção de uma cidadania plena das pessoas negras. Além disso, ele é um instrumento muito importante da sociedade racista na manutenção de espaços exclusivamente brancos.


*O termo colorismo foi usado pela primeira vez pela escritora Alice Walker no ensaio “If the Present Looks Like the Past, What Does the Future Look Like?”, que foi publicado no livro “In Search of Our Mothers’ Garden” em 1982.

** María do Mar Castro Varela & Nikita Dhawan discutem o mimetismo e a obssessão pela brancura nas ex-colonias europeias no texto “Of Mimicry and (Wo)Man: Desiring Whiteness in Postcolonialism” publicado no livro “Kritische Weißseinforschung in Deutschland” – Mythen, Subjekte, Masken de 2005.

*** Harris-Perry, Melissa V. . “Sister Citizen – Shame, Stereotypes and Black Women in America”.
Yale University Print 2013.


TEXTO DE http://blogueirasnegras.org/2015/01/27/colorismo-o-que-e-como-funciona/ 

Enegrecendo as Princesas



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