quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Mulheres filósofas

Quando falamos de filosofia logo pensamos em Sócrates ou Platão, mas quando alguém pergunta sobre Hildegarda de Bingen ou Christine de Pisan, o que você responderia? Algumas pessoas podem pensar que foram Doutoras ou qualquer outra coisa, porém ninguém pensaria que foram filósofas.
Conheça a baixo a vida e obra de algumas filósofas.


Antigüidade Greco-Helênica (Séc. VII - IV)
Introdução:
Desde o alvorecer da filosofia, quando a racionalidade começa a desenvolver-se e distinguir-se das formas mítico-poética e descobre as formas demonstrativas e argumentativas - quando as noções de sábio e mágico ainda se confundem e as primeiras distinções entre sofia e filosofia começam a aparecer, podemos encontrar registros de mulheres que se ocupavam desta esfera sagrada do saber, como poetas e educadoras (Safo, Corina), sacerdotisas (Bacantes), personagens míticas (Musas) e heroínas literárias (Circe, Medéia, Penélope, Antígona, Ariadne, entre outras). As primeiras pensadoras de que se têm notícias, mais por referências de doxógrafos e citações em textos literários do que pela conservação de suas próprias obras, indicam não apenas discípulas de escolas filosóficas da antigüidade como também mulheres de destaque na vida cultural de Atenas do século V a.C. É o caso de Aglaonice, Aspásia, Melanipa e Arete.



Safo de Lesbos



Nasceu entre 630 e 612 a.C na cidade lésbia de Mitilene. Provavelmente nasceu em uma família aristrocata. Foi muito respeitada na antiguidade sendo considerada a décima musa. Porém, sua poesia continha conteúdo erótico, e foi censurado na idade média.
Casada com Cércilas, teve uma filha. Rivalizou com o poeta Alceu, com quem representa à criação da poesia lírica grega, em contraposição a poesia épica de Homero.
Safo tinha uma escola para moças, onde lecionava poesia, dança e música (considerada primeira escola de aperfeiçoamento). Ali as discípulas eram chamadas de Hetairai (amigas) e não alunas. A mestra se apaixona por suas “amigas” (todas) em especial uma Atis, sua favorita, porém Atis se apaixona por um homem, e em ciúmes lhe escreve um poema:
"Semelhante aos deuses parece-me que há de ser o feliz
mancebo que, sentado à tua frente, ou ao teu lado,
te contemple e, em silêncio, te ouça a argêntea voz
e o riso abafado do amor. Oh, isso - isso só - é bastante
para ferir-me o perturbado coração, fazendo-o tremer
dentro do meu peito!
Pois basta que, por um instante, eu te veja
para que, como por magia, minha voz emudeça;
sim, basta isso, para que minha língua se paralise,
e eu sinta sob a carne impalpável fogo
a incendiar-me as entranhas.
Meus olhos ficam cegos e um fragor de ondas
soa-me aos ouvidos;
o suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor (...)”



Os pais da aluna tiram-na da escola, e Safo escreve que “seria bem melhor para mim se tivesse morrido”.
Dizem que ela se suicidou pulando de um precipício apaixonada pelo marinheiro Faonte. Morreu em data desconhecida, acredita-se que atingiu a
velhice, foi considerada por muitos a maior poetisa de todas. Assim como Homero era conhecido como o Poeta, Safo era conhecida como a poetisa.
“Há quem afirme que são 9 as musas. Que erro!
Safo é a décima musa”(Platão)
Mesmo que ela não tenha sido considerada filósofa em sua biografia, somente o fato de um de seus poemas tratarem o amor diferente, já mostrando o interesse em um amor livre de preconceitos, já demonstra uma nova visão para a sua época, o que muitos só foram descobrir depois!

Apásia de Mileto

Nascida em Mileto, permanece na cidade até seus 25 anos vai para Atenas. Passa a pertencer ao circulo da elite a qual pertence Péricles, e com ele tem um filho, que recebe o nome do pai, sendo amante dele, pois ele não podia separar- se segundo as leis atenienses. Pouco se sabe dela, pois ela não escreveu nada, sua historia é contada através de outros livros como os de Platão e outros.


Diótima de Mantinéia


Personagem fictícia criada por Platão (427-347 a.C.), é apresentada como sábia no diálogo O Banquete. Para alguns autores, esta personagem poderia ter sido inspirada em figuras reais, como Aspásia, ou outras, já que aparece como uma sábia (sophé) estrangeira.

Asiotea
Ensinava física na Academia de Platão, quando esta já era dirigida por seu neto, Espeusipo (393-270 aC), ao lado de outras mulheres que freqüentavam a escola.

Hipárquia
Aristocrata, é elogiada por Diógenes Laertios (Vida e Obra de Filósofos Ilustres) pela cultura e raciocínio, comparando-a com Platão. Seguia os costumes e idéias dos cínicos (Diógenes, o cínico) e escreveu Cartas e Tragédias.


Maria, a judia, ou Miriam
Viveu em Alexandria no séc. I d.C., seguidora do culto de Isis e considerada pelos historiadores da química como a fundadora da alquimia. Entre os seus escritos, está o livro de Magia Prática.


Hipácia de Alexandria

Falecida provavelmente em 415 d.C., foi filha do matemático e astrônomo Teón de Alexandria, e deixou alguns títulos de suas obras como Comentário a Aritmética de Diofanto, Sobre as cônicas de Apolonio e Corpus Astronômico. Estudou as obras de Platão e Aristóteles e tentou aplicar o raciocínio matemático ao conceito neoplatônico de Uno.
Pagã e partidária da distinção entre filosofia e ciência, tinha prestígio político e acadêmico em Alexandria. Perseguida pelos cristãos, que a acusavam de perseguição, foi agredida e assassinada na rua por um grupo de fanáticos liderados por um religioso chamado Pedro. Hipácia representava a antiga tradição egípcia e grega de sabedoria feminina que competia com as autoridades religiosas da época que começavam a impor uma nova cultura: as mulheres não tinham mais direito de falar em assembléias e nos cultos e cada vez menos podiam ensinar nas escolas. (conf. Hypatias’s Daughters, de Linda Lopez MacAlister).



Medievalidade (séculos V – XIV d.C.)



Introdução:

Do período compreendido como a Patrística na igreja católica até o século XII, as mulheres ocidentais ficaram privadas do direito à instrução e à participação pública e por causa disso, com raras exceções, não temos notícias de escritoras ou cientistas. A poetisa Casia (sec.IX) foi exilada pelo imperador bizantino Teófilo e se refugiou num monastério onde continuou a escrever versos, agora contra os homens néscios e ignorantes. Ana Comneno (séc. XI) filha do imperador bizantino Alejo I foi historiadora e, com seu marido, terminou a obra sobre a dinastia dos Comnenos, intitulada Alexiada. A partir do século XII, ocorre uma virada na cultura e na sociedade medieval do ocidente, com inovações teológicas e artísticas, e acontece o despertar das filósofas.

Hildegarda de Bigen ou Hildegad Von Bingen:

Nasceu em 16 de setembro de 1098 em Bermersheim perto de Alzey, e morreu em 17 de setembro de 1179. Foi mística, filósofa, compositora, e escritora, abadessa de Rupertsberg em Bingen. Filha de uma família senhorial da cidade que nasceu, foi educada no convento de Disibodenberg nas artes liberais, desde 1106 . em 1114 ingressou na ordem, que se regia por Regula Benedicti, tornando-se sua abadessa em 1136. Fundou seu próprio convento em 1147, na cidade de Rupertsberg, 
onde morreu.
Foi autora de várias músicas religiosas incluindo o Ordo Virtutis, uma espécie de ópera.Alegava ter visões inspiradas por Deus, e que Ele a encorajou a escrever livros. Escreveu livros de medicina na Europa demonstrando sua enorme inteligência.
Seus livros são: Liber simplicis medicinae, que trata de plantas, animais e minerais de uso terapeutico; e Liber compositae, que falava de natureza causa e sintoma das doenças com base na fisiologia microscopia, mensionando
a importancia das estrelas sobre o corpo. Depois dessa introdução cosmológica fala de doença da cabeça aos pés, falando de questões sexuais, gravidez e varios outros assuntos. Foi uma mulher reconhecida como figura religiosa por papas, reis, eclesiaticos... e sua influencia foi sentida por toda a Europa medieval.
Ela se baseava na medicina popular e tradições populares, recorrendo a amuletos, exorcismo de demonios e outros. Sua fama de mistica não ficaram apenas em seu país, e se espalharam chegando até a Roma. Houveram quatro tentativas de canonização, permaneceu apenas beatificada. A igreja anglicana a considera como santa.


Heloísa de Paráclito



Nasceu em Paris em 1101, em uma família riquíssima, foi educada por seu tio, e desde muito cedo mostrou talento para a vida intelectual. Completou o estudo das artes liberais (gramática, astronomia, geometria...), as que se ensinavam nas faculdades, e as que as mulheres tinham pouco acesso. Fulberto, seu tio, pediu ao filosofo e teólogo Pedro Abelardo que dava aulas de filosofia a sua sobrinha, para completar sua formação, e logo aceitou.
Heloísa tinha 16 anos e Abelardo tinha 38, e logo surgiu um amor forte e apaixonado entre os dois. Suas relações escondidas duraram 2 anos até que ela ficou grávida e ai surgiu o escândalo, já que Abelardo era casado. Foram a Bretanha, a casa da família de Abelardo, onde Heloísa ficou até dar a luz. Abelardo foi a Paris para enfrentar suas responsabilidades e encontrou um furioso Fulberto, e ofereceu casar-se com ela, porém em segredo, pois já o era casado em público, e se desquitasse perderia a licença de filosofia.
Devido a convivência de um casal não casado, os escândalos continuaram, Fulberto separou Heloísa de Abelardo, e os proibiu de se encontrarem. Porém de nada isso adiantou, escaparam e voltaram a se ver. Heloísa ficou no convento onde havia sido educada, e as constantes visitas de Abelardo provocaram um escândalo maior: a profanação de um lugar sagrado perante um ato ilícito.
Este fato fez com que Fulberto perdesse o controle, e mandou dois capatazes para castrar Abelardo. No outro dia, já conhecido o atentado, toda Paris desfilou ante Abelardo por sua sorte. O Rei mandou castigar Fulberto, tomando alguma de suas propriedades. Abelardo se convenceu que Deus o havia castigado por pecar, e decidiu se tornar monge. Mas para ele, tinha que divorciar-se e convencer a Heloísa se torne freira em um convento.
Depois de convencer Heloísa, só faltava decidir quem ficava com o filho, e finalmente entregaram-no a irmã de Abelardo, que o criou em
Bretanha. Feito isso, Abelardo seguiu em seu monastério em Saint Denis, e Heloísa em Argenteuil em 1118.
Abelardo morreu 1142 e Heloísa em 1164.
Depois de se separarem nunca mais se viram, porém trocaram cartas, e elas mostram que nunca deixaram de se amar.



Catalina de Siena


Nasceu em Siena no ano de 1347 e morreu em 1380. Ingressou em uma experiência ascética como Ângela de Foligno, retirando-se em sua própria casa. Aos dez anos entrou na Ordem Terceira de São Domingo das mulheres que, permanecendo em casa, seguiam um modo de vida rigorosamente religioso. Depois de uma experiência, em que Jesus aparecia em uma visão a ela tirando o coração dela e colocando o dele no lugar, saiu aos quatro ventos denunciando o papa, os reis e os cardeais.
Sua principal critica era que a igreja tinha um compromisso muito grande sobre as coisas temporais... Seu espírito reformador era estranho a qualquer impulso nostálgico ou apocalíptico, e lutou contra os vícios da igreja respeitando sua hierarquia somente num sentido histórico. Afastando-se da tradição mística, concebia o amor divino não como uma experiência nupcial, mas antes como um “sentimento materno-filial”. Continuou laica e liderou uma comunidade heterodoxa de homens e mulheres, sendo considerada a última reformadora religiosa do período medieval.
Depois dela, a igreja católica ocidental não é mais considerada a Civitas Dei, aquela instituição milenar total que a Europa havia conhecido depois da queda do império romano.
(fonte com uma visão diferente)
Foi muito importante para a igreja, aliás, é uma das três doutoras da igreja, apesar de nunca ter uma preparação formal. Ela foi o instrumento usado pelo Senhor para que o papado voltasse para Roma, e saísse de Aviñon (Paris). Ela tinha um profundo amor pela santa virgem, e pelos pobres.
Durante sua vida converteu muitas pessoas, de diferentes idades, classes sociais, a uma vida cristã. Muitos dizem que Jesus casou com ela na fé, mas é difícil de acreditar, pois ela havia tido muitas visões, porém existem pessoas que acreditam. Fez muitos milagres aos pobres, e vários outros, e foi canonizada. Sua festa é comemorada no dia 30 de abril.


Cristina de Pizán




Nasceu em Veneza, no ano de 1365, e morreu no mosteiro de Poissy em torno de 1430. Foi filosofa e poeta francesa, embora tenha nascido na Itália. Filha do médico e astrólogo da corte do rei Carlos V da França, casou-se com o secretário e escrevente do rei, Étienne Castel. Aos vinte e cinco anos ficou órfã de pai, e viúva, com sua mãe para tomar de conta. Sozinha, tomou coragem e se pôs a estudar e escrever. Seu trabalho foi bem sucedido, e começou a vender livros por encomenda para rainhas e princesas.participou da querelle. No ano de 1405 escreve seu livro mais famoso, A cidade das mulheres. Nele, questiona o “machismo”.
Algumas obras literárias:
Le Livre des Faitz et bonnes Moeurs du Saige Roy Charles, biografia aprofundada escrita por pedido de Filipe, duque da Borgonha, que educava o filho mais velho de Cristina em sua corte como seu próprio filho; é um livro com lições de moral cujo mérito é um pouco prejudicado por excessiva demonstração de erudição e estilo difuso;
Le Livre de Paix, tratado sobre a educação dos príncipes que devem ser treinados, segundo a autora, em honestidade;
Trésor de la Cité des Dames
Lettre à Isabeau de Bavière, na qual tenta reabilitar o caráter de uma mulher difamada pelo Roman de la Rose.
Sua obra poética consiste de longos poemas como:
Le Livre des Mutations de Fortune,
Le Chemin de Longue Etude,
Le Livre des cent Histoires de Troie.
São composições ambiciosas, pesadas. Suas baladas, rondós e poemas menores são mais elogiados pela clareza e graça. Clemente Marot, 80 anos depois de sua morte, a elogia e considera superior a seu mestre, Eustache Deschamps.



Modernidade (Séc. XV - XVIII)
Introdução:
Ao longo da Idade Média, as possibilidades de estudo para as mulheres era restrita à sua entrada em alguma ordem religiosa ou em algum mosteiro onde poderia aprender a ler, estudar as escrituras e receber alguma noção elementar de direito civil e canônico; algumas chegavam a ocupar cargos de bibliotecária, escrevente (copista) ou professora. Até o renascimento, dominava a idéia de desigualdade das capacidades intelectuais e profissionais entre os sexos, o que se refletia nas concepções pedagógicas da época. Vozes isoladas e com motivações diversas propagavam a necessidade da educação das mulheres: Erasmo de Rotterdam dizia que a educação de ambos era necessária para o bom convívio do casal numa sociedade em que homens e mulheres estão destinados a viver juntos; Martin Luther, para que as jovens pudessem ler a Bíblia por si mesmas. Até o século VII o debate sobre a educação foi animado por intelectuais, literatos e pedagogos que propunham um modelo diversificado de educação, conforme o sexo, visando justificar destinos sociais diferentes para homens e mulheres. O pedagogo Amos Comenius (1592-1670) foi uma exceção ao propor uma teoria da instrução universal, para todas as idades, todas as classes sociais, sem distinção de sexo. O humanismo, que na Itália iniciou-se com Petrarca e Boccaccio, ofereceu uma obra mitológico-literária que resgata as figuras femininas notáveis da antigüidade, distinguindo o papel da mulher no campo cultural (De mulieribus claris –1361). O Renascimento, nos séculos XV e XVI, coincidem com a abertura gradual dos níveis mais elevados de instrução para as mulheres e com o fim da proibição do acesso feminino aos campos da arte e da literatura, pelo menos para uma elite aristocrática ou burguesa. Por outro lado, toda esta efervescência científica e cultural não é capaz de impedir que os tribunais da Inquisição espalhem o terror e a morte, principalmente entre as mulheres mais pobres e velhas, viúvas ou solteiras, durante três séculos.


Teresa de Jesus (de Ávila)



Nasceu em 18 de março de 1515, em Gotarrendura, e morreu em 4 de outubro de 1582, venerada pela igreja católica e canonizada em 1622, em Roma pelo papa Alexandre VII. Sua festa litúrgica é comemorada no dia 15 de outubro.
Teresa de Cepeda e Ahumada nasceu na província de Ávila, Espanha, numa família da baixa nobreza. Seus pais chamavam-se Alonso Sánchez de Cepeda e Beatriz Dávila e Ahumada. Teresa refere-se a eles com muito carinho. Alonso teve três filhos de seu primeiro casamento. Beatriz deu-lhe outros nove.
Aos sete anos, gosta muito de ler histórias dos santos. Seu irmão Rodrigo tinha quase a sua idade, por isto costumavam brincar juntos. As duas crianças viviam pensando na eternidade, admiravam a coragem dos santos na conquista da glória eterna. Achavam que os mártires tinham alcançado a glória muito facilmente e decidiram partir para o país dosmouros com a esperança de morrer pela fé. Assim sendo, fugiram de casa, pedindo a Deus que lhes permitisse dar a vida por Cristo. Em Adajaencontraram um dos tios que os devolveu aos braços da aflita mãe. Quando esta os repreendeu, Rodrigo colocou toda a culpa na irmã. Com o fracasso de seus planos, Teresa e Rodrigo decidiram viver como ermitães na própria casa e construíram uma cela no jardim, sem nunca conseguir terminá-la. Desde então, Teresa amava a solidão.
A mãe de Teresa faleceu quando esta tinha quatorze anos: "Quando me dei conta da perda que sofrera, comecei a entristecer-me. Então me dirigi a uma imagem de Nossa Senhora e supliquei com muitas lágrimas que me tomasse como sua filha". Quando completou quinze anos, o pai levou-a a estudar no Convento das Agostinianas de Ávila, para onde iam as jovens de sua classe social.
Um ano e meio mais tarde, Teresa adoeceu e seu pai a levou para casa. A jovem começou a pensar seriamente na vida religiosa que a atraia por um lado e a repugnava por outro. O que a ajudou na decisão foi a leitura das "Cartas" de São Jerônimo, cujo fervoroso realismo encontrou eco na alma de Teresa. A jovem comunica ao pai que desejava tornar-se religiosa, mas este pediu-lhe para esperar que ele morresse para ingressar no convento. No entanto, em uma madrugada, com 20 anos, a santa fugiu para oconvento Carmelita de Encarnación, em Ávila, com a intenção de não voltar para casa.
Seu pai ao vê-la tão motivada, deixou que seguisse com o que queria. Um ano depois fez profissão dos votos. Um pouco depois, uma enfermeira começou a olestá-la antes de fazer os votos, seu pai a tirou do convento. Teresa havia pirado, e seu pai a levou ao hospital. Os médicos já tinham se dado por vencidos, quando graças a um livro que, seu tio Pedro deu a ela, o terceiro alfabeto espiritual, começou a pratica-lo em orações mentais, conseguio vencer a doença, e voltou ao Carmelo.
Logo que chegou, conquistou a todos com sua caridade e amabilidade. Segundo as regras dos conventos espanhóis, as religiosas podiam receber todos os visitantes que desejassem, e como ela passava muito tempo fazendo isso, se descuidou de sua orção mental. Pouco depois da morte de seu pai, o confessor de Teresa fê-la voltar a praticar a oração mental, pois isso a ajudaria muito. No entanto não estava decidida a entregar-se totalmente a Deus, nem a renunciar o tempo que passava recebendo as visitas. Mesmo assim, nunca deixou de prestar atenção nos sermões, por piores que fossem.
Decidiu fundar um convento reformado. As autoridades aprovaram, porém muitas pessoas da nobresa criticram, até suas proprias irmãs o fizeram. Apesar disso tudo, prossegui com o projeto. Acabou fundando esse convento e mais dois no fim de sua vida. Morreu em uma viajem.
Teresa é uma das maiores personalidades da mística católica de todos os tempos. Suas obras, especialmente as mais conhecidas (Livro da Vida, Caminho de Perfeição, Moradas e Fundações), contém uma doutrina que abraça toda a vida da alma, desde os primeiros passos até à intimidade comDeus no centro do Castelo Interior. Suas cartas no-la mostram absorvida com os problemas mais triviais. Sua doutrina sobre a união da alma comDeus é bem firmada na trilha da espiritualidade carmelita, que ela tão notavelmente soube enriquecer e transmitir, não apenas a seus irmãos, filhos e filhas espirituais, mas à toda Igreja, à qual serviu fiel e generosamente. Ao morrer sua alegria foi poder afirmar: "Morro como filha da Igreja".
Santa Teresa de Ávila é considerada um dos maiores gênios que a humanidade já produziu. Mesmo ateus e livres-pensadores são obrigados a enaltecer sua viva e arguta inteligência, a força persuasiva de seus argumentos, seu estilo vivo e atraente e seu profundo bom senso. O grande Doutor da Igreja, Santo Afonso Maria de Ligório, a tinha em tão alta estima que a escolheu como patrona, e a ela consagrou-se como filho espiritual, enaltecendo-a em muitos de seus escritos.


Louise Labé



Nasceu em 1524 e filha de um rico cordoeiro, Louise recebeu uma ótima educação, muito acima de qualquer outra da época. Aos 16 anos se vestiu de homem para participar de debates, acompanhando seu amante ao cerco dePerpignan. Anos depois, novamente travestida, participou de um torneio deesgrima em Lyon.
Em 1550 resolvel casar-se com um rico cordoeiro, como foi seu pai. Em sua mansão, deu grandes recepções para a burguesia, e quando o marido morreu, voltou a ter aventuras amorosas.
Suas obras sempre estavam envolvidas com o amor(paixão sensual e ardente), e sempre defendendo o feminismo.
LouiseLabé foi poetisa discípula do poeta napoleônico Maurice Scevé. Casada sem filhos, se dizia uma mulher de costumes liberais. Escreveu Sonetos e Debate sobre Loucura e Amor. Na dedicatória desse livro, Labé escreveu uma espécie de manifesto a favor do feminismo, como por exemplo, o direito das mulheres a ciência e outros conhecimentos... escreveu também Élégies.
Em uma carta de Louise para sua amiga, Mademoiselle, Louise mostra o que pensa:
“É chegado o tempo, Mademoiselle, em que as leis inflexíveis dos homens não mais impedirão as mulheres de se devotarem às ciências e disciplinas; parece-me que aquelas que forem capazes, irão empregar esta honrada liberdade, a qual nosso sexo outrora tanto desejava, em estudar estas coisas e mostrar aos homens o mal que causaram em nos privar do benefício e da honra que poderiam nos advir. E se alguém chega ao estágio no qual seja capaz de pôr suas idéias no papel, deveria fazê-lo com muito intelecto e não deveria desprezar a glória, mas adornar-se com ela antes do que com correntes, anéis e roupas suntuosas, as quais não podemos considerar realmente como nossas exceto pelo costume. Mas a honra que o conhecimento nos trará, não nos pode ser tomado – nem pela astúcia de um ladrão, nem pela violência de inimigos, nem pela duração do tempo.”
A carta mostra claramente que ela estava mesmo muito confiante que um dia as mulheres chegariam a ter os mesmos direitos que o homem.
Morreu no ano de 1566.



Mary Astel
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Nascida em 1666, foi escritora britânica, e muito importante figura no protestantismo inglês. Angelicana, Astel unificou seus pensamentos filosoficos e religiosos. Conservadora na política, rigorosa na religião, inovou, contundou o campo moral e pedagógico da sua época.
Nasceu em familia simples, e as mulheres nessa época eram 80% analfabetas, mesmo assim, conseguiu estudar, graças ao seu tio, que foi seu preceptor. . Através dele, estudou os filósofos de Cambridge, que serviram de filtro entre a cultura e a religião anglicana e a filosofia racionalista. Conheceu as obras de Descartes e Hobbes. Com essa formação, ela se convenceu da necessidade e da legitimidade de uma evolução espiritual e cultural das mulheres, e decidiu empenhar-se em romper o círculo vicioso da ignorância e inferioridade intelectual que aprisionava as mulheres de sua época. Suas idéias eram com base tanto na religião, como na filosofia, pois acreditava que o uso pleno das faculdades intelectuais, era o melhor jeito de servir a Deus, tanto para homens, como para mulheres.
Em 1694, publicou a primeira de suas obras de caráter feminista: A Serious Proposal to the Ladies for the Advancement of their true and greater Interests. By a lover of her Sex. A partir desta publicação, começa uma intensa correspondência com o filósofo neoplatônico e anticartesiano John Norris (1657-1711), que foi editada, de comum acordo, depois. Fortalecida e esclarecida de suas convicções após este diálogo, publica outros textos e dedica-se a um projeto, nunca realizado, de criação de uma espécie de mosteiro protestante feminino, que seria uma escola e uma comunidade onde as mulheres pudessem, livremente, dedicar-se ao seu aperfeiçoamento racional e espiritual, em um clima afetivo fraterno, como um modo de vida alternativo às instituições sociais e religiosas, então existente.



Mary Wollstonecraft

Nascia em Spitalfields no ano de 1739, próximo a Londres, o seu pai, um fabricante de lenços, era um homem irritadiço e perturbado, que tanto batia na esposa, nos filhos ou no cão da família. Autodedata, aprendeu a ler aos 14 anos. Apesar de ter uma família de posses, preferiu morar comunitariamente com sua irmã e uma grande amiga. Faziam artezanato para viver, e tentaram abrir uma escola, porém não obtiveram susesso.
Ao longo de sua vida, conheceu vários intelectuais não conformistas, que contribuíram para alargar sua cultura. Leu Schakespeare, Milton, Pope, Locke, Rousseau. Publicou seu primeiro livro em 1987, Pensamentos sobre a educação das filhas. Em 1790, durante os acontecimentos revolucionários, escreve a Reivindicação dos Direitos dos Homens e, em 1972, sua obra mais importante, um tratado político-filosófico intitulado Reivindicação dos Direitos da Mulher. Para ela, as mulheres deveriam envolver-se plenamente no projeto ilustrado e reformador: educação, direitos políticos, responsabilidade pessoal, igualdade econômica, racionalidade e virtude inseparáveis, liberdade e felicidade.
Em 1796, começou uma relação com o filósofo radical William Godwin, do qual engravidou e com quem se casou, apesar de negar o valor positivo do matrimônio. Em 1797, deu a luz à Mary Godwin, que depois se tornaria Mary Shelley (1792-1822), famosa escritora do romance Frankenstein (1818). Morreu quinze dias após o parto, de septicemia, em 1797.






Olímpia de Gouges


Nascida em Montauban como Maria Gouze, era filha bastarda de um homem muito influente em seu local de nascimento e de Anne- Olimpe Muisset, então casada com um açougueiro da vila. Alguns de seu biógrafos afirmam que não sabia ler nem escrever, situação comum na época para muitas mulheres, especialmente as mais pobres, mas não deixa de ser surpreendente para uma mulher que irá escrever mais de quatro mil páginas de escritos revolucionários ao longo de sua vida, entre peças de teatro, panfletos, libelos, novelas autobiográficas, textos satíricos, utópicos, filosóficos...
Casou-se jovem em 1765 com Luis Aubry de quem teve um filho, Pierre. Enviuvou logo depois e, em 1770, transferiu-se para Paris onde adotou o pseudônimo de Olympe des Gouges. Pelas pinturas remanescentes, era uma mulher de notável beleza. Em torno de 1784 começou a escrever ensaios, manifestos e iniciou ações de cunho social.
Como apaixonada advogada dos direitos humanos, Olympe de Gouges abraçou com destemor e alegria a deflagração da Revolução. Mas logo se desencantou com a constatação de que a fraternité da Revolução não incluía as mulheres no que se refere à igualdade de direitos.
Em 1791 ela ingressou no Cercle Social— uma associação cujo objetivo principal era a luta pela igualdade dos direitos políticos e legais para as mulheres. Reunia-se na casa da conhecida defensora dos direitos das mulheres Sophie de Condorcet. Foi aí que Olympe expressou pela primeira vez sua famosa assertiva: "a mulher tem o direito de montar o seu palanque".
No mesmo ano, em resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ela escreveu a Declaração dos direitos da Mulher e da Cidadã. Logo depois, escreveu o Contrato Social, nome inspirado na famosa obra de Jean-Jacques Rousseau, propondo o casamento com relações de igualdade entre os parceiros.
Por se envolver ativamente nas questões que lhes pareciam injustas, como a condenação à morte de Luis XVI, por ser contra a pena de morte, e desapontada em suas expectativas, passou a escrever com mais e mais veemência. Em 2 de junho de 1793, os Jacobinos prenderam os Girondinose seus aliados, enviando-os em seguida à guilhotina. Nesse mesmo ano, Olympe escreveu a peça Les trois urnes, ou le salut de la Patrie, par un voyageur aérien e, por causa dela, foi presa. A peça demandava a realização de um plebiscito para escolher uma das três formas potenciais degoverno: República indivisível, Governo federalista e Monarquia constitucional. Os Jacobinos, que já haviam executado uma rainha, não estavam dispostos a tolerar a defesa dos direitos das mulheres: exilaramSophie de Condorcet e, um mês depois, em 3 de novembro de 1793, guilhotinaram Olympe de Gouges.








Contemporaneidade (Séc. IX - XX)


Introdução:
A resistência feminina na época contemporânea: revolucionárias, espiritualistas, feministas, acadêmicas. Filósofas, enfim?

O feminismo foi a primeira forma de identidade pública que as mulheres – antes uma minoria e depois, grupos cada vez mais extenso - se outorgaram. O i ngresso de mulheres, como sujeito sexualmente diferenciado, na cena política, se produziu sobre a base filosófico–jurídica da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão” dos revolucionários franceses. O movimento feminista conviveu, desde o início do século XIX, com o movimento socialista. O socialismo, por sua vez, surgiu da reelaboração dos ideais revolucionários e ilustrados e foi condutor de um projeto de democracia política e de igualdade econômica e social. Mas não houve identificação nem assimilação do feminismo histórico com o projeto socialista. Pelo contrário, as diferenças entre as feministas “burguesas” ou liberais e as feministas socialistas se acentuaram. O horizonte ético político do feminismo do século XIX foi a igualdade entre os sexos e a emancipação jurídica e econômica da mulher, mesmo que a versão burguesa acentuasse mais a igualdade política e civil e a versão socialista acentuasse mais a igualdade social e econômica. Também se formou uma corrente dualista que demarcou a diferença na igualdade e privilegiou formas de luta e organização específicas e autônomas para as mulheres. De todo o modo, ao longo do século XIX, as feministas desenvolveram uma agenda ampla e específica, ao mesmo tempo: a luta pela liberdade de pensamento e associação, a abolição da escravidão e da prostituição das mulheres, e pela paz. O signo político do feminismo mudou na segunda metade do século XIX. Os processos de industrialização e urbanização que se desenvolveram na Europa e na América envolveram as mulheres de classes operárias e pequeno-burguesas nos movimentos socialista e feminista, que começaram a delinear uma estratégia política específica para enfrentar a “questão da mulher”. Inúmeras ativistas e escritoras foram fundamentais no desenho do movimento feminismo que caracteriza este período. Nos Estados Unidos, Lucretia Mott (1793-1880) esteve envolvida com a abolição da escravidão, o direito ao voto e a paz no mundo através da Society of Friends; na Inglaterra, se formou a Society for Woman’s Sufrage, e a Ladies National Associations, defensora da regulamentação da prostituição e a International Abolitionst Federation, promovidas por Josephine Butler; também a inglesa Mary Ann Evans, que publicava sob o pseudônimo de George Eliot, escrevia novelas de fundo filosófico e pedagógico para a compreensão da condição da mulher; na França, a anarquista Louise Michel, junto com outras mulheres, participava da Comuna de Paris (1871) enquanto Mme. Edmond Adam (1836-1877),que publicava com o pseudônimo de Julliet Lambert e Mme. Jenny d’ Héricourt envolviam-se com uma dura polêmica contra as idéias anti-feministas de Proudhon.


Rosa de Luxemburgo


A protagonista mais importante do marxismo nasceu na Polônia, em uma família judia. Adolescente, começou a perceber-se de sua condição judaica e começou a freqüentar os ambientes do partido social - democrata polonês que era perseguido pela política. Migrou em 1889 para a Suíça, que funcionava então como uma espécie de zona franca para socialistas de toda a Europa, e se inscreveu na Faculdade de Filosofia. Ali conheceu Leo Jogiches, que seria seu companheiro até 1906 e com quem publicava, em Paris, o jornal A Causa Operária.
Ao longo de seus estudos universitários, participou, sempre à esquerda, das atividades políticas do SPD, o partido social - democrata polonês e de encontros políticos internacionais, como o III Congresso da Internacional Socialista. Em 1897, licenciou-se em Ciência Políticas com a tese O Desenvolvimento Industrial na Polônia. Antimilitarista, foi presa diversas vezes. Também na prisão escreveu seus textos e participou da Liga Espartacus, que participou, junto com os operários e militares insurretos da chamada República de Weimar, na Alemanha, instalada em 1918, de caráter democrático-parlamentar.
Entre seus diversos textos, conta-se com Acumulação do Capital. Contribuição para a explicação econômica do imperialismo (1912); Militarismo, guerra e classe operária (1914); A Revolução Russa (1917); entre diversos artigos para o jornal e revistas como a Spartakus. Em 1919 é assassinada pela polícia em uma prisão alemã. OBS.: Há um filme sobre a sua história, intitulado Rosa Luxemburgo, da diretora Margarethe von Trotta, 1986, Globo Vídeo. Também Hannah Arendt dedicou-lhe uma biografia (1966), que faz parte do livro Homens em Tempos Sombrios, coletânea publicada no Brasil em 1987 e reimpressa em 1998 pela Companhia das Letras.
Obras:
Trabalhos teóricos:
O Manifesto ComunistaO Capital
O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
Sobre a Questão JudaicaGrundrisseA Ideologia Alemã
Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844
Teses sobre Feuerbach

Sociologia e antropologia:
Alienação · BurguesiaConsciência de classeFetichismo da mercadoriaComunismoHegemonia culturalExploração · Natureza humanaIdeologia · ProletariadoReificação · SocialismoRelações de produção

Economia:
Força de trabalho · Lei do valorMeios de produçãoModo de produçãoForças produtivasTrabalho excedenteValor ExcedenteProblema da transformaçãoTrabalho assalariado
História:
Anarquismo e marxismoProdução capitalistaLuta de classesDitadura do proletariadoAcumulação primitiva do capitalRevolução proletáriaInternacionalismo proletárioRevolução mundial
Filosofia:
Materialismo históricoMaterialismo dialéticoMarxismo analíticoAutonomismo marxistaFeminismo marxistaHumanismo marxistaGeografia marxistaMarxismo estruturalMarxismo ocidentalMarxismo libertárioJovem Marx
Principais obras:
· Reforma ou Revolução
· Acumulação do Capital
· Greve de Massas, Partidos e Sindicatos
· Introdução à Economia Política
· Questões de Organização da Social-Democracia Russa
· A Revolução Russa
· Que Quer a Liga Spartacus?


Lou Andreas-Salomé


Nasceu em 1861 em São Petersburgo e morreu em 1937. Foi uma intelectual alemã nascida na Rússia. Ela escandalizou a sociedade e quebrou as regras morais, teve vários amantes, mulher sensível, mito, muito sensual.
A produção literária de Lou esteve sempre muito ligada aos seus envolvimentos amorosos e da relação com Rilke, aos 36 anos, resultaram obras fundamentais da escritora como "A humanidade da mulher" e "Reflexões sobre o problema do amor".
“Ouse, ouse... ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!Não tente adequar sua vida a modelos,nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la!Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!”
Louise von Salomé teve um papel intelectual de primeira ordem na cultura européia na virada do século. Associada aos nomes famosos do filósofo Nietzsche, do poeta Rainer Maria Rilke e do pai da psicanálise Sigmund Freud, ela encarna uma síntese de individualidade e espírito de época raro. Nasceu na Rússia, em São Petesburgo, numa família que se orgulhava de suas origens alemãs e professava a religião luterana.
Teve uma educação esmerada, dedicando-se aos estudos literários e filosóficos com o pastor holandês Hendrick Gillot, um homem de cultura e viajado. Dotada de uma grande inteligência e uma aparência agradável, freqüentava o estúdio de seu professor, que a definia como livre pensadora, para ler Descartes, Rousseau, Pascal, Kant, Rousseau, Voltaire e textos de história das religiões. Por conselho de seu preceptor, matricula-se numa universidade italiana e passa freqüentar o salão de Malwida von Meysergurg (1816-1903), uma intelectual liberal que também a hospeda. Ali conhece o filósofo Paul Ree. Judeu ateu e nihilista com quem estabelece uma relação intelectual que lhes levou a viver juntos como “irmão e irmã”, segundo suas palavras.
O debate entre ambos acerca da questão de Deus, que Lou entendia como uma falta e busca e não como uma recusa da questão, teve mais um participante: Friedrich Nietzsche, que também perambulava pela Itália na época. A relação a três durou o tempo de Nietzsche enamorar-se dela e pedir-lhe em casamento, o que ela recusou e significou a ruptura com ele, indo embora para Berlin com Paul Ree.
Na Alemanha, conhece em 1987 o então jovem e desconhecido poeta Rainer Maria Rilke, com quem mantém um intenso romance e uma correspondência até 1926. Em uma viagem à Rússia, em 1889, com Rilke, encontra o escritor León Tolstói, com quem debate acerca da possibilidade de conciliar progresso técnico e científico com o espírito religioso russo.
Em 1919, por sugestão do filósofo judeu Martin Buber, escreveu seu primeiro ensaio de argumento psicológico, O Erotismo, rompendo com o terreno da arte e da literatura onde até então transitava. Este ensaio lhe abriu caminho até Freud, coroando uma intensa busca existencial e intelectual. A partir daí passou a freqüentar os ter ritórios de debate psicanalíticos e encontrou nesta teoria o argumento que necessitava para articular seus maiores interesses: a arte, a religião e a experiência amorosa, como se pode verificar em seus textos: Reflexões sobre o problema do amor (1900); Religião e Cultura (1898) e mesmo o ensaio de 1986, Jesus, o judeu. A partir de 1923, começa a ser analista didática e publica, em 1931, Meu Agradecimento a Freud, entre outros tantos textos não indicados aqui. OBS.: Em português está disponível o livro Minha Vida, pela Brasiliense, 1985.

Santa Teresa da Cruz (Edith Stein)


Foi uma religiosa alemã, a última de onze irmãos de uma família judia que professava o Judaísmo. Seus pais judeus foram Siegfried e Augusta Courant Stein. Faleceu, aos 51 anos, asfixiada, numa câmara de gás, a 9 de Agosto de 1942, no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. Foi professora de Filosofia, sendo discípula de Edmund Husserl(Fenomenologia) e secretária particular desse filósofo.O pensamento desta autora traz de novo à discussão, em pleno século XX, a tradição mística cristã de Santa Teresa e de São João da Cruz, no contexto da Alemanha nazista, da queda da República de Weimar, e na iminência da Segunda Guerra Mundial. Última filha de uma numerosa família judia de Breslau, após seus estudos de colégio buscou ingressar na universidade de sua cidade para estudar psicologia mas, fascinada pelos estudos de Edmund Husserl, decide transferir-se para a universidade de Gottinger, onde ele lecionava. Ali também estuda com Max Scheler. Em 1915 presta serviço na Cruz Vermelha e em 1916 se licencia, com distinção, com uma tese sobre O problema da empatia [Einfühlung]. Segue estudando o pensamento de São Tomás e outros autores cristãos, que a afastam das idéias de Husserl, com quem trabalhava então, a convite dele. Em 1918 decide retirar-se da universidade, e aproximar-se mais do catolicismo, ao qual acaba se convertendo em 1922, de pois de ler a Vida de Teresa de Jesus.. Parece que a decisão de Edith leva Husserl e outros professores veteranos a serem reticentes quanto à habilitação para mulheres lecionarem na universidade. Ela protesta contra esta discriminação encoberta e faz um pedido de esclarecimento, ao qual o ministério responde em favor da universidade. Convertida ao catolicismo, começa a lecionar no liceu das dominicanas e, em 1925 dedica-se a uma intensa atividade científica e pedagógica, traduzindo obras de Tomás de Aquino e Newman e publicando Sobre o Estado (1925) e A fenomenologia de Husserl e a filosofia de Tomás de Aquino (1929). Interessou-se pela questão feminina no campo filosófico e religioso, publicando Ethos das profissões das mulheres (1932). Stein sustentava que o movimento feminista alemão havia conseguido todos seus objetivos na Constituição da república de Weimar. A nova realidade social das mulheres requeria agora a defesa dos resultados conquistados e a transmissão às novas gerações da memória histórica das lutas feministas, uma vez que a renovação deveria implicar, antes de tudo, as mulheres cristãs. Stein afirmava em vários textos que o Antigo Testamento e o Direito Romano haviam perpetuado na igreja uma visão errada da mulher que era insustentável . Para Stein, a mulher tem uma realidade ontológica igual e distinta do homem; uma realidade ontológica que deve explorar e conhecer por si mesma enquanto que a mulher vista pela mulher não é a mesma mulher vista pelo homem. Parece que Stein pretende propor a consciência fenomenológica como uma consciência cristã e feminina, como base de um novo modo de fazer pedagogia, filosofia, ação civil e ação religiosa. Seus últimos estudos reúnem todos os temas propostos em seu pensamento, no material inédito intitulado Scientia Crucis, dedicado a São João da Cruz. A partir de 1938, Edith começa a ser perseguida pelas autoridades por causa de suas origens judias e, em 1942, ela e sua irmã são enviadas para o campo de concentração de Auschwitz, onde morre, no mesmo ano, numa câmara de gás. Foi beatificada em 1987. OBS.: No Brasil, pode-se encontrar uma biografia intelectual de Edith Stein feita por Christian Feldmann publicada pela EDUSC, 2001: Edith Stein. Judia, Atéia e Monja.


Maria Zambrano


María Zambrano, filósofa e escritora espanhola, nasceu em Málaga em1904 e faleceu em Madrid em 1991.
O pai, um catedrático, estabelece profunda amizade com o poeta Antonio Machado. Em 1924 conhece Ortega y Gasset que a introduz no meio cultural madrilenho, principalmente na tertúlia da Revista de Occidente. Completa o curso de Filosofia em 1927, onde estudou com Xavier Zubiri, García Morente e Ortega.
No período que antecede a guerra civil espanhola, sucedem-se uma série de atos públicos e de grande intervenção política como a criação da Liga de Educação Social, mais tarde assaltada e encerrada pela polícia. Em 1936 Maria Zambrano faz parte de um grupo de intelectuais que, com missões pedagógicas, iniciam uma nova experiência de educação popular. Percorrem povoados e aldeias remotas levando-lhes pela primeira vez o cinema, a pintura, o teatro e a música clássica.
Em janeiro de 1939 para um exílio de 45 anos, vivendo em Havana, México, Paris, Roma e Suíça, onde continuou seu trabalho como professora de filosofia até finalmente regressar a Madri em 1984. Morre em 1991, em meio a um enaltecimento de sua obra e de personalidade, tendo recebido vários prêmios.
A relação entre a filosofia e a poesia, o mito e a razão, a paixão e o intelecto, a obra e a ação, o papel dos intelectuais e o sentido da história parecem ser a principal preocupação de Maria Zambrano. Pode-se perceber as influências do pensamento ortegiano e heideggeriano em sua obra, mas seu estilo e escritura se impõem com uma marca própria. Propõe a superação do racionalismo através de uma “razão poética”, cujo exercício prático pode ser verificado em sua própria obra. Partindo de uma epoké fenomenológica de cunho místico – o silêncio que deixa falar as coisas - Zambrano segue a idéia heidegeriana de que a essência dominadora da razão ocidental, desde Platão até o idealismo alemão, construiu um logos desencarnado, desarraigado, que deprecia a vida, um espírito que nega o imediato para afirmar sua liberdade absoluta. Frente ao logos que que faz do homem contemporâneo um ser exilado e nihilista, Zambrano reclama uma razão poética que seja uma mediação para recuperar o contato com a terra, sem cair no irracionalismo. A influência de Jung em sua obra, evidente na própria terminologia (animus/anima), leva a filósofa a destacar a polaridade histórica dos sexos como o dualismo alma/feminina intelecto/masculino.
O tratamento que faz das figuras emblemáticas de Antígona e Diotima se encontra demarcado, portanto, na missão salvadora que acompanha a palavra feminina. Esta missão, entretanto, é o reverso da crítica que faz ao feminismo “nada é nem vale o moderno feminismo” (em : Eloisa ou a existência da mulher) já que, segundo Zambrano, este participa do racionalismo moderno que considera que deve ser superado. Talvez este aspecto tenha lhe valido o reconhecimento de pensadores como Cioran, que elogia a profundidade filosófica de Zambrano afirmando que “não vendeu sua alma à Idéia” e por isto não se tornou “presunçosa e agressiva” como toda mulher que se dedica à filosofia... (El País, 4.11.1979) OBS.: Em português, a Assírio e Alvim publicou, em 2000, a coletânea de textos A Metáfora do Coração e outros escritos.



Hannah Arendt

Nasce em 1906 e morre em 1975. foi uma teórica política alemã, muitas vezes descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou para os Estados Unidos durante a ascensão do nazismo na Alemanha e tem como sua magnum opus o livro "Origens do Totalitarismo".
Nasci da numa rica e antiga família judia de Linden, Hanôver, fez os seus estudos universitários de teologia e filosofia em Königsberg. Arendt estudou filosofia com Martin Heidegger na Universidade de Marburgo, relacionando-se passional e intelectualmente com ele. Posteriormente Arendt foi estudar em Heidelberg, tendo escrito na respectiva universidade uma tese de doutoramento sobre a experiência do amor na obra de Santo Agostinho, sob a orientação do filósofo existencialista Karl Jaspers. A tese foi publicada em 1929.
Em 1933 (ano da tomada do poder de Hitler) Arendt foi proibida de escrever uma segunda dissertação que lhe daria o acesso ao ensino nas universidades alemãs por causa da sua condição de judia. O seu crescente envolvimento com o sionismo levá-la-ia a colidir com o anti-semitismo doTerceiro Reich o que a conduziria, seguramente, à prisão. Conseguiu escapar da Alemanha para Paris, onde trabalhou com crianças judias expatriadas e onde conheceu e tornou-se amiga do crítico literário e místicomarxista Walter Benjamin. Foi presa (uma segunda vez) em França conjuntamente com o marido, o operário e "mar xista crítico" Heinrich Blutcher, e acabaria em 1941 por partir para os Estados Unidos, com a ajuda do jornalista americano Varian Fry.
Trabalhou nos Estados Unidos em diversas editoras e organizações judaicas, tendo escrito para o "Weekly Aufbau". Em 1963 é contratada como professora da Universidade de Chicago onde ensina até 1967, ano em que se muda para a New School for Social Research, instituição onde se manterá até à sua morte em 1975.
O trabalho filosófico de Hannah Arendt abarca temas como a política, aautoridade, o totalitarismo, a educação, a condição laboral, a violência, e a condição de mulher.
A convicção de que tudo o que acontece no mundo deve ser compreensível pode levar-nos a interpretar a história por meio de lugares-comuns. Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja. (Hannah Arendt Origens do Totalitarismo[1950]. Companhia das Letras, 1998, 3ª reimpressão, p.12. )

Distinguindo-se da informação correta e do conhecimento científico, a compreensão é um processo complexo, que jamais produz resultados inequívocos.Trata-se de uma atividade interminável, por meio da qual, em constante mudança e variação, aprendemos a lidar com nossa realidade, reconciliamo-nos com ela, isto é, tentamos nos sentir em casa no mundo.( Hannah Arendt Compreensão e política [1953] A Dignidade da Política. Relume- Dumará, 1993, 2ª edição, p.39. )


Simone de Beauvoir


Nasce em 1908 e morre em1986. Nasceu em Paris, primeira filha de uma família de situação econômica confortável.
Duas experiências marcam sua juventude: a leitura de Balzac, que a faz perceber que já não acredita em Deus e a intensa amizade com Elizabeth Mabille (Zazá), sua “única relação não livresca” de adolescência, que morreu jovem de um mal desconhecido. A ex periência da morte de Zazá impressiona profundamente Simone, e permite a descoberta do sentido do luto, da morte, do absurdo da vida. Elas haviam se inscrito juntas para a universidade de Sorbonne, onde Simone estudou matemática e filosofia e conheceu Jean-Paul Sarte (1905-1980) e Paul Nizan, entre outros que fariam parte do grupo de intelectuais franceses mais importantes após a Segunda Guerra Mundial.
Muito jovem já era uma leitora ávida e decidiu precocemente ser uma escritora. Orientou-se por este projeto e deixou vasta obra literária e filosófica, sendo que muitos dos seus textos são autobiográficos, como Memórias de uma Moça Bem Comportada (1958), A Força da Idade (1960), A força das Coisas (1963), Uma Morte muito Doce (1964), Balanço Final (1972) e A Cerimônia do Adeus (1981). Nestes textos, retoma e examina recorrentemente, os primeiros trinta e cinco anos de sua vida, examinando a fundo este período de sua vida e estabelecendo conexões sempre novas com suas experiências posteriores.
A vida adulta de Simone esteve marcada pelos acontecimentos culturais e políticos da época e decididamente vinculados à sua relação intelectual e afetiva com Sartre. Foi colaboradora assídua da revista Le Temps Modernes, fundada por ele e Maurício Merleau-Ponty em 1945, e nas décadas de 50 e 60 viajou pelo mundo debatendo sua produção filosófica e literária, bem como interagindo com vários grupos políticos e feministas. Por uma moral da Ambigüidade (1947) e O Segundo Sexo (1947), sua obra mais famosa, que tornaram-na um ícone da movimento feminista do
s anos 60 e 70, consolidam Simone como uma filósofa existencialista, que também utiliza os pressupostos fenomenológicos e do materialismo histórico para pensar o seu tempo.
Em 1970 escreve A Velhice, que retoma as análises de O Segundo Sexo para tratar do tema existencial do envelhecimento na perspectiva da mulher. Ganhou um prêmio literário por Os Mandarins (1954) e fez sucesso com a narrativa Todos os Homens são Mortais (1946) e A Convidada (1967).

Em 1957, escreveu A Grande Marcha, sobre a Revolução Chinesa, um estudo documental, crítico e problemático sobre a China após a revolução de 1949. Junto com Sartre, foi nomeada membro do Tribunal Russerl, o tribunal internacional encarregado de julgar os crimes cometidos pelos norte americanos e seus aliados na guerra do Vietnã.
Em 1968, polemizou sobre a invasão soviética à Tchecoslováquia e se uniu ao movimento estudantil do chamado maio francês. A partir dos anos 70, engajou-se ativamente nas ações do Movimento de Libertação das Mulheres, grupo feminista da “Segunda Onda” francês e participou com os dissidentes russos em ações de solidariedade em favor dos perseguidos por motivos ideológicos e políticos. Falece em 1986, seis anos após a morte de Sartre.



Simone Weil


Nasce em 1909e morre em1943. Nasceu em Paris, filha de uma família judia, mas não recebeu educação religiosa. Foi aluna do filósofo Alain [Émile August Chartier] de 1925 até 1928; em 1931 conseguiu a habilitação para ensinar filosofia na Escola Normal Superior. Durante alguns anos foi professora do instituto mas, seguindo seu impulso político e sua fé caritativa, decidiu fazer parte da classe operária: dividia seu salário com eles e se interessava por seus problemas humanos e sindicais. Renunciou ao ensino em 1934 e começou a trabalhar como simples operária. Em 1936, quando estourou a guerra civil espanhola, partiu para unir-se aos militantes antifranquistas impulsionada por um internacionalismo que comprometia os intelectuais, escritores e militantes de esquerda do mundo todo. Vítima de um acidente, viu-se obrigada a voltar. Dedicou-se, então, a viajar pela Itália, onde também visitou Assis. Em 1938, já iniciada sua “conversão” ao catolicismo, situou o problema religioso como o centro de seus interesses. Simone Weil nunca chegou a ser uma católica, mas buscou elevar-se em uma religiosidade essencial que brotava de suas intuições mais pessoais e profundas. Suas reflexões políticas e filosóficas, a partir da análise do marxismo e de sua experiência na fábrica, é uma crítica às idéias de poder, de estado e de burocracia, e uma análise do esvaziamento e da perversão da autoridade, ao mesmo tempo em que defende o trabalho como valor humano, um símbolo de humanidade e materialidade do homem e defronta-se com sua condição de alienação estrutural e metafísica. Daí surge a necessidade religiosa, ao resgate do caráter sagrado da experiência moral e das relações humanas e mundanas.
Sua contribuição filosófica política e moral, aliada ao seu percurso biográfico, revela uma das personalidades mais complexas e interessantes do século XX. Seus textos refletem e tematizam sua experiência e suas intuições, bem como seu percurso pelo marxismo até a religião como experiência iluminadora do sentido da ética. Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social (1934); Reflexões sobre as origens do hitlerismo e A Ilíada, poema da força (1939); Deus em Platão (1940); Intuições pré-cristãs (1941-42); Apego. Prelúdio para uma declaração dos deveres para o ser humano (1942-43). Sua saúde debilitada ao longo dos anos a levou a morrer em agosto de 1943, no sanatório de Ashford, em Londres, onde ainda se dedicava a um último projeto político e de pesquisa.
Obras traduzidas:
A Condição Operária e Outros Estudos Sobre a Opressão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
A gravidade e a graça. São Paulo:ECE, 1986.
Espera de Deus. São Paulo:ECE, 1987.
Aulas de filosofia. Campinas, SP: Papirus, 1991.
Pensamentos desordenados acerca do amor a Deus. São Paulo:ECE, 1991.
O enraizamento. Bauru, SP: EDUSC, 2001.
Opressão e liberdade. Bauru, SP: EDUSC, 2001.



Ângela Davis


Nasceu em 1944 e permanece viva até hoje. Esta norte americana ficou internacionalmente conhecida na década de 70 como ativista radical do movimento político black power- as panteras negras.
Oradora brilhante, seus escritos mais populares em periódicos de divulgação da causa negra revelam habilidades analíticas sofisticadas. Sua persona pública está associada a elementos míticos de uma época em que o movimento estudantil alcançou proporções internacionais e o movimento negro alcançava uma dimensão política sem precedentes na trilha das reivindicações de Martin Luther King (também filósofo).
Poucos sabem Davis que teve formação filosófica acadêmica, foi aluna de Herbert Marcuse e fez seu doutorado na Alemanha, na Universidade de Frankfurt, estudando Kant, Hegel e Marx com Habermas e Adorno (que orientou sua tese), entre outros. Nos Estados Unidos, em sua graduação, havia estudado com Herbert Marcuse e há uma hipótese de que ele se refira a ela em seu Ensaio sobre a Liberação(1969) “ What are the people in a free society going to do? The answer which, I belive, strikes at the heart of the matter was given by a young black girl. She said: for the first time in our life, we shall be free to think about what we are going do.”
Interessava a Ângela Davis as ferramentas e os pressupostos da teoria crítica dos pensadores da Escola de Frankfurt, assim como interessava a ela sua própria realidade e o destino político da comunidade negra norte americana. E interessava-se por estes temas como mulher, negra, política e pensadora, não nesta ordem, mas de uma forma indissociável. É por isto que na filosofia vai debater os conceitos de liberdade e liberação, bem como reivindicar a reflexão sobre sexismo e racismo como temas teóricos relevantes, ao lado de classe e poder, do mesmo modo que na militância no movimento pela Liberação Negra americana, vai lutar para incluir a perspectiva de gênero.
Davis considera o racismo e o sexismo, junto com as classes sociais como os elementos que constituem os pilares do capitalismo. Ação e reflexão são dois aspectos inseparáveis de sua vida e obra, e seu trabalho enfocou três áreas: teoria crítica, teoria da liberação negra, teoria feminista. Seus escritos trazem um pensamento transformador para a reflexão filosófica no século XX, embora as questões que levantou ainda estão longe de serem superadas. Os títulos de alguns de seus trabalhos são: Lectures on Liberation (1971); Angela Davis: An Autobiography (1974); Women, Race & Class (1981); Meditations on the Legacy of Malcon X (1992); Afro Images: Politics, Fashion, and Nostalgia (1994); Black Women in Academy (1994) Na Essay on Liberation (1969) (conf. artigo Notorious Philosopher. The transformative life and work of Angela Davis, em: Linda Lopez McAlister, Hipatia’s Daugethers)

Comentários:
“À pergunta “existem mulheres filósofas?” pode-se responder que sim, tanto no passado quanto no presente, embora nossos currículos tradicionais ainda as ignorem. O entendimento do que é a filosofia, que subjaz como critério de apresentação das pensadoras, é bastante amplo para considerar que a reflexão filosófica interessa-se por tudo o que se refere à condição humana e gera pensamento reflexivo, discursivo, narrativo, ficcional ou poético, argumentativo, conceitual e criativo. Na história do pensamento filosófico, o interesse dos protagonistas pode concentraram-se mais em um ou outro campo das atividades humanas e da existência, mostrando o diálogo com a sua época e uma visão de mundo que enriquece a civilização (neste caso, a ocidental) e o próprio gênero literário. As mulheres pensadoras não são uma exceção: são apenas a parte esquecida de um processo histórico que selecionou e alimentou, privilegiadamente, a memória da vida e obra dos homens na filosofia. Se entendermos que o processo civilizatório é fruto do trabalho conjunto de mulheres e homens, está na hora de voltarmos o nosso olhar na direção das contribuições daquelas que foram esquecidas. Talvez esta virada revele dimensões da atividade filosófica passada que permitam a geração de novos sentidos e práticas na atividade filosófica, atual e futura.”
(Ana Míriam Wuensch- professora da Universidade de Brasília)
Observações finais:

É importante dizer que a partir do séc. XX , vem crescendo o número de filósofas. No texto é possível notar que as primeiras mulheres não tinham o título de filósofas, e mais ao fim do mesmo, elas começam a estudar a filosofia, e ganham o titulo de filósofas, escrevendo sobre o assunto e ... acho importante que continuemos a pesquisa por novas filósofas.

Bibliografia:

www.altavista.digital.com/imagem
http://www.google.com.br/
pt.wikipedia.org/wiki/Hildegarda_de_Bingen
pt.wikipedia.org/wiki
http://www.consciencia.org/forum/index.php/topic,169.0.html
texto > http://mulherfilosofa.blogspot.com.br/

Um Egito Negro incomoda muita gente!!




Quem engole esse embranquecimento do Egito, os filmes de Hollywood só colocam atores brancos, sendo que o verdadeiro povo egípcio eram negros, '' ah mas olha o povo do egito, são todos de pele clara, semitas, negros NÃO ''

a população atual do Egito é formado por árabes que invadiram depois, resumindo: nenhum povo do atual Egito tem sangue verdadeiro dos povos egípcios.

Um Egito Negro incomoda muita gente porque a África é um continente de conquistas e feitos, onde se produziu e se produz arte, ciência, tecnologia, filosofia. Porque é fonte de orgulho, de deleite. A solução para esse incômodo foi espalhar por aí que a Antiga Grécia é o berço de nossa civilização, esquecendo que tudo aquilo que os gregos produziram não foi um milagre que aconteceu por geração espontânea. Que é impossível deixar pra lá que a África e em especial o Antigo Egito (que até mesmo para os antigos gregos era uma antiga civilização) tem um papel mais que central nessa estória.

Uma pista muito simples nos oferece a magnitude do problema. Foram os antigos egípcios que inventaram uma das primeiras mídias portáteis do mundo, o papiro. Não por caso Alexandria tinha uma das maiores bibliotecas do mundo antigo. Mas teria sido um grego Calímaco durante uma viagem à cidade egípcia que ~inventou~ o primeiro sistema de catalogação de livros, muito similar ao que é usado pela biblioteca do congresso norte-americano e que foi utilizado por Roma. Mais uma vez, o Egito Antigo Negro e portanto a África tem seu conhecimento extirpado para outro continente e se tornam apenas uma citação. O nome disso pra mim é roubo.



Usurpar patrimônio africano não basta, também é necessário embranquecer seus sujeitos. Tanto na série José do Egito (atualmente em reprise pela Record) quanto em Êxodo: Deuses e Reis as personagens são majoritariamente brancas. Os realizadores são incapazes de reconhecer que todo um complexo sistema de crenças, filosofia, arte, arquitetura, astronomia e medicina são coisas de preto. Qualquer movimento diferente disso, mesmo a simples hipótese de que os antigos egípcios era negros, é vandalismo demais para aguentar.

Uma coisa muito engraçado como a degradação ocorre de modo seletivo, tantas partes das estátuas e esfinges para serem danificadas mas somente boca e nariz sofrem degradação, que coisa não? talvez desfazer dos traços negroides? parabéns eurocentrismo.

Toda história que o povo negro domina querem transformar em brancos.
A maioria dos nobres do alto Egito eram negras como a rainha Tye avó de Tutancâmon mãe de Aquenáton.


Vamos falar da CleópatraYoncé agora e sua irmã negra oprimida Arsinoe, cientistas a um tempo atrás concluíram que os ascendentes da sedutora rainha eram africanos - fato, aliás, do qual ela sempre se envergonhou, e foi abatido pela mídia né amores.


o formato e as dimensões do crânio de Arsinoe que indicam que ela possuía características físicas de africana – e, se essa é a sua ascendência, pela lógica também deve ser a de sua irmã. É certo que seu ancestral Ptolomeu, que se tornou governante do Egito por ordem de Alexandre, o Grande, complica um pouco a situação pelo fato de ele ser da Macedônia. Mas análises antropológicas e arquitetônicas da tumba acabaram convencendo os especialistas de que Cleópatra realmente descendeu de negros e não corria sangue de macedônios em suas veias. “Tudo indica que ela tinha o rosto em formato alongado, traço típico de africanos da Antiguidade. Cleópatra possuía genes da raça negra”, diz Thuer.

A equipe de pesquisadores e historiadores, a partir daquilo (lenda ou não) que o tempo deixou registrado sobre Cleópatra, chegou a outra dedução – ou, talvez, ilação. Como ela maltratava as mulheres negras de seu séquito, chegando a experimentar nelas a força dos venenos dos quais se cercava, provavelmente renegava suas origens. Ela era culta e falava oito idiomas. No terreno da vaidade, costumava entregar-se a águas aromatizadas por plantas. Já nas negras, sangue de seu sangue, ela batia. Ou as matava. Falando-se em assassinato, também na semana passada ganhou força outra investigação histórica sobre Cleópatra. Arqueólogos acreditam que à época em que foi amante do general romano Marco Antônio, após a morte de Júlio César, ela ordenou que a irmã Arsinoe fosse morta para evitar uma futura disputa pelo trono egípcio. Ironicamente, é como se agora Arsinoe se vingasse através de sua milenar e carcomida ossada, revelando o fato do qual Cleópatra sempre se envergonhou: o de ser negra




Sem falar que muitas múmias de egípcios foram trocadas por múmias de gregos e romanos, destas se faz DNA sem problema , mas de múmias que não foram trocadas , os responsáveis criam grandes dificuldades . O rei Tutankamom foi encontrado no sarcófago , sem tempo para o substituir . A noticia de 2011 , que ele teria DNA europeu foi uma farsa .Até a National Geographic fez um documentário com direito a rosto quase europeu . A empresa que fez a pesquisa sobre o haplo grupo dos continentes não quis revelar o haplo grupo do faraó . Depois outra empresa analisou e constatou tipo negro subsaariano.

Vamos dar uma conferida um pouco nas múmias, estátuas e esfinges.
múmia de Maiherperi













O Esfinge (reconstituição) era assim antes das tropas de Napoleão destruir o nariz e o lábios
 





egípcios como eles se viam
Diop observou que “os egípcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos: ‘os KMT que significa negros literalmente’. Este é o termo mais forte existente na língua faraônica para indicar a negritude “. Ele acrescentou: “Esse termo é um substantivo coletivo que assim descreveu toda a população do Egito faraônico como povo preto.” Para mais provas, Diop se focou nos monumentos e como os antigos egípcios se representavam em sua arte.



Múmia de uma rainha antiga é bem conhecido por especialistas em mumificação . A estrutura do seu cabelo Africano hennaed - como o cabelo de outras múmias - foi modificado por produtos químicos usados ​​na mumificação combinado com o processo de envelhecimento.


Se os mesmos produtos químicos de mumificação no cabelo da mulher Bilen ( Eritreia ) que foi usado no início dos africanos faraônicas durante o processo de mumificação que provavelmente estava mais reto e mais do que o cabelo da rainha acima. Contrariamente à opinião popular europeias promovidas na web , os egípcios tinham cabelo não é diferente de outros africanos que vivem ao sul do Egito.




Duas princesas africanas, antiga ( Amarna EEI) e modernos , com deformação cabeça Africano habitual .




Hat- Shep - Suwe ou Hatshepsut do período Amarna , provavelmente, possuía um rosto essencialmente Africano , seu pai era Thutmoses I. Alguns acreditam que ela foi um dos Makedas ou
“rainhas” de Sabá 

.


O rosto de um Winnie Mandela , uma reminiscência de Hatshepsut , pode refletir a ligação genética de antigos egípcios e africanos do sul.




Zulu Mulher ( Bantu - falante ) - Rawlinson observou semelhanças na coloração e estrutura corporal entre antigos egípcios e outros africanos ou ” Nigritians ” . Hoje genética dos antigos egípcios estão confirmando uma proximidade marcados com os africanos do sul. Veja o link para uma análise do DNA baseado em autossomos aqui - http://www.dnatribes.com/dnatribes-digest-2012-01-01.pdf

Vamos ver um pouco da semelhança da vestimenta dos povos Zulu e do Egito?



sábado, 17 de setembro de 2016

A solidão da mulher negra e o racismo cotidiano



Eu estava ali diboa quando resolvi buscar exemplos (ainda mais) próximos de um fenômeno que persiste, pouco discutido e, talvez, cada dia mais forte, que é o da preterição da mulher negra. Ou o “racismo sem racistas, seção: mulher” (fique a vontade pra nomeá-lo como melhor lhe aprouver).

Foi um trabalho simples, executável em dez ou quinze minutos, sem demanda de maiores esforços. Digno de quem anda evitando a fadiga, como eu. O trabalho consistiu, basicamente, em abrir a minha lista de contatos no whatsapp e quantificar os meus familiares e amigos com “estado civil” conhecido. Encontrei 21 homens comprometidos dos quais apenas 3 tinham esposas ou namoradas negras.

Informo que meu foco primordial eram os homens negros – porque sou capaz de apostar um rim como a eleita será branca a cada vez que vejo boa parte deles comprometida -, mas acabei por expandir a observação e contabilizando também os homens brancos e as mulheres lésbicas. Entre os homens, contei 9 negros e 12 brancos, já entre as mulheres lésbicas (3), todas eram brancas, assim como suas namoradas.

Talvez eu não tenha ficado satisfeita com o resultado e aí fui dar uma olhada no instagram. Usei os mesmos critérios (Tem namorada,companheira ou esposa? Quantas, entre elas, são negras?). Ali eu contabilizei outros 20 homens (excluídos os que existem em comum com a lista do whatsapp), dos quais apenas 2 tinham namorada/esposa negras.

Talvez eu novamente não tenha ficado satisfeita com o resultado, e, percebendo que eu seguia poucos famosos no instagram, resolvi dar um breve passeio pelas contas de algumas “celebridades”, pelo bem da observação. Dessa vez observei apenas os homens negros – cantores pop, atores, atletas. Eu gostaria que vocês chutassem o resultado dessa busca. Podia ter um, pra fechar certinho minha curva descendente, mas não. Dez, dos dez homens negros pesquisados, namoram ou estão casados com mulheres brancas.



Conversando com uma amiga a respeito disso, ela se perguntou “será que nenhum desses caras olha pros lados na turma de amigos e se pergunta “por que será que só tem branca aqui?” Eu penso que não. Não porque, sob uma lógica própria, todos ali estão obedecendo a um padrão. Os meus familiares e amigos no Whatsapp e no Instagram não me deixam mentir. Será a cor das parceiras afetivas uma escolha aleatória? Coisa apenas do coração? Resposta: não. NÃO é possível creditar apenas a um gosto pessoal a escolha por esposas e namoradas brancas.

Meus prezados, eu não quero dizer que vocês não têm direito a ter um gosto pessoal.

Eu estou dizendo que até a sua pessoal e intransferível preferência é moldada socialmente. Estou dizendo que, se eu te pedir pra fechar os olhos e imaginar uma mulher, essa mulher formada em sua mente será branca. Que se você vir uma mulher branca bonita, ela será apenas “bonita”, mas se quem você visualizar for uma mulher negra bonita, então ela será uma “negra bonita”. É que desde criança você foi acostumado a pensar no branco como neutro.

Os bonecos, as bonecas, os personagens dos desenhos que assistia, os apresentadores dos seus programas preferidos (de todas as idades), as propagandas de brinquedo, de carro, de margarina, de leite, de sabão, de sapato, de produtos de beleza (insira qualquer produto apto a ser objeto de campanha publicitária aqui)… Lembre também da sua paixão de infância, lembre das mocinhas dos filmes e das novelas.E lembre das namoradas que apresentou para seus pais. O que eu estou dizendo, finalmente, é que reduzir sua escolha ao mero campo do gosto pessoal, ignorando a construção social que o fez conceber o branco como o bonito, é, para dizer o mínimo, inocente. É esquecer desse caráter estrutural que o racismo tem.



(E antes que você venha enumerar os papéis de destaque que as mulheres negras vem ganhando na mídia, dê uma olhada no material que i)foi produzido há 30, 40 anos; ii) vem sendo produzido recentemente e volte aqui pra gente conversar um pouco sobre humor, sexualidade e reforço de estereótipos)

Eu sei que não estou dizendo nada novo nesta nota.

Apesar disso, é esse o exato ponto da conversa em que nos classificam como paranóicas ou dizem que“tudo agora é racismo”. Esse discurso da paranóia é emblemático e encontra guarida no mecanismo peculiar do racismo brasileiro, que consiste em transformar a vítima em culpado. Porque o racismo, na realidade, estaria na cabeça das pessoas que o apontam, que o veiculam como um problema a ser enfrentado. Dizer que “tudo agora é racismo” é demonstrar, no mínimo, desinteresse pela constatação de que a história desse país está fundada em racismo, e é justamente por não haver nada novo em objetificar mulheres negras e tratá-las como mulheres de segunda categoria que vocês não podem fingir que é só uma paranóia.



Racista não é só a jovem branca na TV chamando um jogador de futebol de macaco. Racistas somos nós, a cada vez que negamos espaço a discussões como essa ao argumento de que isto está superado, ou não é importante. Eu, aliás, queria ter poder pra observar o dia-a-dia de cada um daqueles que apedrejou a casa da torcedora do Grêmio, só para vê-los dizendo – no conforto de seus lares livres de preconceito – que um negrinho “se deu bem” ao vê-lo passear com sua namorada branca, que aquela menina black power é muito bonita mas deveria pentear o cabelo, que políticas públicas de cotas raciais são racismo reverso, entre tantas outras manifestações de racismo nossas de cada dia, a provar por definitivo o caráter difuso e estrutural da segregação racial em nosso país e revirando seus bolsos de pessoas de bem para encontrar onde é mesmo que o seu racismo se esconde.

Como não posso ir até lá, sigo lhes lembrando, daqui mesmo, quão hipócrita é vestir sua camiseta de “Say no to racism” e continuar adotando a comodidade da postura “neutra” ao invisibilizar toda a sorte de discriminações que acontecem bem ao seu redor – e com as quais você contribui – para apenas compreender como racistas aqueles, bem longe de nós, que espancam, xingam ou oferecem bananas.
texto de >  http://lugardemulher.com.br/a-solidao-da-mulher-negra-e-o-racismo-cotidiano/

A solidão tem cor - Solidão da mulher negra


As trajetórias das mulheres negras brasileiras são permeadas pela solidão, conforme denunciam ativistas e intelectuais entrevistadas pela Fórum. Esse fato está intimamente relacionado ao processo de escravidão e às suas consequências, sobretudo aos estereótipos associados a elas no imaginário social
Por Anna Beatriz Anjos e Jarid Arraes

No último Censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, dados sobre a mulher negra brasileira chamaram a atenção. O levantamento apontava que, à época, mais da metade delas – 52,52% – não vivia em união, independentemente do estado civil (veja os dadosaqui).

O quadro pincelado pelas estatísticas tem cores extremamente vivas para as mulheres negras brasileiras, que, de acordo com inúmeros relatos, sentem na pele os efeitos da solidão e do preterimento durante toda a vida. Há anos o movimento feminista negro aborda essa pauta, mas ultimamente, com a força das redes sociais, o debate tem se amplificado – sobretudo no tocante aos relacionamentos heterossexuais – e causado polêmica.

A discussão sobre afetividade da mulher negra extravasa os círculos de militância: ao longo das décadas, diversos intelectuais tocaram nessa questão em suas dissertações, teses e artigos, principalmente quando tinham como objeto de estudo as relações interraciais no Brasil. Exemplos são Thales de Azevedo, Florestan Fernandes, Elza Berquó, entre outros.

Mais recentemente, duas intelectuais negras têm se destacado na produção acadêmica sobre o assunto. Em 2008, a socióloga e professora da Universidade Estadual da Bahia (UNEB) Ana Cláudia Lemos Pacheco se tornou doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com a tese Branca para casar, mulata para f…., negra para trabalhar”: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia que, em 2013, foi convertida no livro Mulher negra: afetividade e solidão (Edufba). No mesmo ano, Claudete Alves obteve o título de mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP) com a dissertação A solidão da mulher negra – sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro na cidade de São Paulo, que posteriormente se transformou no livro Virou Regra? (Scortecci, 2010). Ambas conversaram com a Fórum sobre seus trabalhos, os primeiros a focalizar a figura específica da mulher negra e a dar voz a ela.


Dados do Censo de 2010 atestam: mais da metade das mulheres negras brasileiras não vivem em união, independente do estado civil (Foto: Reprodução/Facebook)

Solidão, uma questão histórica

Antes de falar sobre a solidão da mulher negra é preciso, segundo Claudete Alves, olhar para a solidão de seu grupo étnico, que se inicia quando ele é “espoliado de seu habitat”, a África, e “destituído de seus meios de produção e de seu próprio corpo enquanto transformador de matéria-prima, de seus sentimentos e de seus afetos. Esse processo, que se configura em uma diáspora negra imposta, denota que tal ocorrência, dolorosa e traumática, afetou o caráter das relações sociais desse grupo social no Brasil e do seu processo de identidade cultural”, escreve a autora em Virou Regra?.

“Ao me debruçar sobre a historicidade da mulher negra, vejo que sua trajetória, a partir da ruptura diaspórica africana até a contemporaneidade, foi permeada pela solidão”, continua a cientista social em sua obra. No decorrer do texto, ela estabelece uma intrincada relação entre o quadro de solidão a que as protagonistas de seu estudo estão submetidas e o processo de escravidão no Brasil.

De acordo com Alves, as mulheres negras eram alforriadas antes dos homens, por estes “serem considerados elementos essenciais à produção agrícola”. “Essa condição excludente e de marginalização a que o homem negro foi relegado imprime um novo contorno à configuração familiar existente, fazendo surgir famílias matrifocais”, explica no livro. “Típicas do Novo Mundo, ao contrário das famílias poligínicas da África, sua característica básica é ser chefiada por mulheres, o que outorga ao feminino a condição de centralidade e autoridade na assunção da permanência e da guarda do lar, em contraposição à ausência definitiva ou flutuante da figura paterna.”

Somado a isso, observava-se, conforme Alves, ocorria “a existência de uma intensa liberdade sexual na vida masculina”, de forma que os homens negros mantinham outros relacionamentos além de seu casamento sem que houvesse “perda de regalias ou prejuízo social”. “Encontramos, assim, mulheres forras e livres, na sua grande maioria solitárias, muitas vezes mães solteiras, como eixo central de seus lares e que, por não terem casado, seja por escolha voluntária, seja por dificuldades sociais ou por preterimento do parceiro, não vivenciaram uma condição de acesso social ou de estabilidade amorosa”, completa, em Virou Regra?.

Gostos e escolhas são construções sociais

Os dados obtidos pelo IBGE revelam que a situação de solidão ainda acomete as mulheres negras, mais de um século após a abolição. Por que, ao longo dos anos, o cenário não se modificou?

De acordo com a antropóloga Laura Moutinho, professora do Departamento de Antropologia da USP (Universidade de São Paulo), no artigo Discursos normativos e desejos eróticos: A Arena das Paixões e dos Conflitos entre “Negros” e “Brancos”, nota-se “a existência de um padrão marital homogâmico na sociedade brasileira; um percentual relativamente baixo de casamentos ‘interraciais’ e, nestes, a predominância do par homem ‘negro/mulher ‘branca’”.

Analisando-se a afirmação de Moutinho, é possível concluir que, nas relações interraciais, são as mulheres negras as mais frequentemente preteridas pelos homens negros, que, conforme demonstra a antropóloga, subvertem a regra do “padrão marital homogâmico” e se relacionam fora de seu grupo étnico, com mulheres brancas. Isso também se comprova por números do último Censo, que indicam: “homens pretos tenderam a escolher mulheres pretas em menor percentual (39,9%) do que mulheres pretas em relação a homens do mesmo grupo (50,3%)”.

Aspectos demográficos podem representar um caminho para a compreensão desse quadro. “Quando se pesquisa, desde Elza Berquó, o mercado matrimonial, verifica-se que, no grupo branco, há um maior número de mulheres do que de homens. Então, pode-se dizer que há uma ‘sobra’. No grupo negro não, identifica-se um equilíbrio. Se não houvesse algum fato sociológico, não se constataria essa solidão no grupo negro”, analisa Claudete Alves. “A mulher branca, que é excedente em seu grupo, migra para o outro, e pelos fatos históricos acaba disputando em condição muito vantajosa no grupo em que há um equilíbrio.”

“Há uma tendência, enfatizada por Berquó, de o excedente de mulheres ‘brancas’ se unir ao excedente de homens ‘pretos’ e ‘pardos’. Tal tendência surpreende, pois ‘é de estranhar que justamente as mulheres pretas que contam com um excedente de homens pretos, exatamente na faixa etária mais favorável às uniões, acabem por ter menores chances de encontrar parceiros para casar. Nossa hipótese é de que o excedente de mulheres brancas na população deve levá-las a competir, com sucesso, com as pardas e pretas, no mercado matrimonial’”, escreve Moutinho em seu artigo.

O preterimento da mulher negra pelo homem negro é elemento frequente nas falas das personagens entrevistadas por Ana Cláudia Lemos Pacheco para sua tese de Doutorado. A socióloga ouviu, ao todo, 25 mulheres negras em Salvador, doze ativistas e treze não ativistas, todas pertencentes a setores da classe média e populares. Para realizar a análise de suas trajetórias sociais, selecionou dez – cinco ativistas e cinco não ativistas. “Eu diria que o triângulo que emergiu e foi muito recorrente nas narrativas das mulheres investigadas foi o formado por mulher negra, homem negro e mulher branca. Sobre homem branco pouco se falou, muito pouco, uma [vez] ou outra.”

“A rejeição é muito mais doída quando vem dos seus iguais; a mulher negra quer ser amada, ser feliz”, aponta a socióloga Eliane Oliveira, feminista, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros (NEIAB) da Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Penso que o homem negro precisa desconstruir o racismo não só no discurso, mas também nas suas práticas.”

A situação de vantagem em que a mulher branca se encontra em relação à negra no mercado matrimonial, sobretudo em relação aos homens pardos e negros, é evidente. “Isso é uma pista segura de que há a interferência social e histórica que termina também sendo um dos fatores que tira, para além de todos os outros direitos da mulher negra, o direito ao amor”, destaca Alves.


Segundo pesquisadoras, no mercado matrimonial, a mulher branca tem vantagem sobre a negra (Foto: Divulgação)

Para Pacheco, uma série de fatores contribui para que as mulheres negras sejam preteridas pelo homem negro. Eles estão, em sua maioria, conectados a aspectos históricos e culturais que habitam nossa sociedade. “Em nosso imaginário cultural, as características raciais e fenotípicas da mulher negra – considerando a cor da pele, as características do cabelo, a estética – estão o tempo todo associadas a estereótipos negativos”, avalia a socióloga. “Essas representações estão vinculadas não apenas ao imaginário social mais geral, mas também ao imaginário acadêmico, literário. Na música, nas imagens socialmente produzidas, o que sempre se destacou [em relação à mulher negra] são essas características, relacionadas a um comportamento sexualizado, quase que servil – e isso é a reprodução de uma concepção bem colonial, quase que a imagem reproduzida da mulher escravizada, que estaria, portanto, para servir ao outro, ao senhor. E a outra representação é a do trabalho, de como a mulher negra seria ‘pau para toda obra’, seria boa para o trabalho servil e doméstico, e não seria uma mulher com desejos, com possibilidades de construir uma afetividade, de ter projetos pessoais, familiares, de uma mulher que tenha a capacidade de pensar.”

A historiadora Karla Alves, ativista negra do grupo de Mulheres Negras do Cariri – Pretas Simoa, conta que a solidão afetiva apenas agravou os efeitos do racismo sobre sua autoestima, algo que sente desde criança, quando era discriminada pelos colegas do colégio e não encontrava, nem nos meios tradicionais de cultura,



tampouco nos conteúdos escolares, referências negras positivas e legítimas. “Isso provocou um estigma ainda pior: a solidão existencial que, naquele momento, não me deixava contar nem comigo mesma”, diz. “A solidão da mulher negra é, portanto, parte indissociável da formação da nossa identidade que o racismo nos impõe. Durante a juventude e vida adulta esta solidão é alimentada pelo desprezo daqueles com quem almejamos estabelecer um relacionamento amoroso, já que passamos a ser vistas somente pelo nosso sexo expropriado e hipersexualizado, principalmente através da mídia.”

Em contrapartida, a imagem da mulher branca, segundo Pacheco, está vinculada a “um comportamento mais condizente com uma expectativa de gênero mais tradicional, aquela que seria ideal para casar, para se manter um relacionamento, para ser mãe, enquanto a mulher negra não caberia nessa representação.” Tal privilégio tem nítida ligação com o padrão de beleza branco difundido como ideal em nossa sociedade, e que não apenas não contempla como marginaliza as características estéticas negras. Sob esse prisma, pode-se dizer que a mulher negra sofre opressões somadas: machismo e racismo.

Estudiosos das relações interraciais no Brasil desde os anos de 1930 discutem também o casamento entre homens negros e mulheres brancas como estratégia de mobilidade social. “(…) a mulher, além de propiciar um dado acesso social ao homem negro, funcionaria como uma possibilidade de escamoteamento de seu padrão fenotípico, conferindo invisibilidade à sua cor”, considera Alves em Virou Regra?. De acordo com a autora, um dos principais méritos de seu trabalho é ter provado que essa prática não ocorre apenas com homens negros que já ascenderam socialmente, como consequência desse movimento – a exemplo dos jogadores de futebol negros, que famosos e endinheirados, frequentemente constituem família com mulheres brancas –, mas se dá em praticamente todos os estratos sociais. Para comprovar essa tese, a pesquisadora visitou diversos espaços da cidade de São Paulo, nas periferias e no centro – teatros, casas de espetáculos, supermercados, maternidades, entre outros – e observou a proporção de casais inter e intraraciais nesses locais.

Diante desses símbolos tão fortes e difundidos em nossa sociedade, é impossível dizer que escolhas do campo afetivo e sexual sejam mera questão de gosto pessoal, plenamente desconectado do universo social em que o indivíduo está inserido. “Na relação com o outro, o desejo de envolvimento afetivo em busca do prazer é permeado pelos valores e ideais estabelecidos pelo contexto social. A manifestação do desejo e o estabelecimento ou não de vínculos amorosos são também determinados por concepções advindas de uma visão machista e racista”, atesta a professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Elisabete Aperecida Pinto, em sua tese de DoutoradoSexualidade na identidade da mulher negra a partir da diáspora africana: o caso do Brasil.

“É o que Sueli Carneiro já falou: nós, feministas negras, não estamos querendo controlar o relacionamento de ninguém. Nós queremos problematizar, porque é algo que tem nos atingido”, argumenta Pacheco. “O racismo é uma ideologia, uma crença que exclui. E não exclui só do mercado de trabalho, da educação, do campo do poder político; essas exclusões influenciam muito na hora da escolha [afetiva].”

“Sinto uma falta enorme de negros famosos que tenham uma defesa da causa negra nos espaços que ocupam na mídia. Mesmo no caso daqueles que fazem de seu trabalho uma forma de levantar nossa bandeira, percebo que na prática as coisas ainda se voltam para o previsível, ou seja, cedem ao padrão social de ter uma loira do lado”, observa Eliane Oiveira. “Muitos podem dizer que é uma questão de gosto, mas nós somos socialmente moldados, dessa forma, nosso gosto não é isento de manipulação ou imposição do que é belo, bom, seguro e desejável. Ora, se sofremos ainda hoje com a herança escravagista de que negra é para cama e não para o casamento, como pensar que o homem negro também não reproduz esse tipo de pensamento sobre ela quando o que mais vemos são eles se casando com as brancas?”, questiona.

Embora a palavra “solidão” seja normalmente associada a sentidos negativos, a professora da UNEB conta que, nos depoimentos que colheu, o termo foi sendo ressignificado – as mulheres negras, como protagonistas de sua própria história, transformaram sua dor em força. “O sentimento de solidão se traduziu em sofrimento, choro, desilusões amorosas e decepções. Mas, apesar desses processos de exclusão social, discriminação étnica e social, essas mulheres se empoderaram, muitas delas superaram desigualdades fundamentais – a questão da sobrevivência, por exemplo, social e econômica –, tornando-se chefes de família, criando seus filhos sozinhas e sem parceiros”, relata. “Há mulheres que se tornaram grandes lideranças do movimento social negro e alcançaram prestígio a ponto de se transformarem em lideranças de grande expressão nacional e internacional e ocupar grandes cargos políticos dentro da sociedade brasileira. E há mulheres que, por outro lado, se empoderaram através do trabalho, da ascensão social e de uma percepção com relação a essas desigualdades.”


Contra a imposição do padrão de beleza branco e pela valorização da estética negra, mulheres negras realizaram, em julho, a Marcha do Orgulho Crespo (Foto: Marcha do Orgulho Crespo 2015)

Consequências psicológicas

O preterimento e a solidão afetiva que atingem as mulheres negras podem causar a elas grande sofrimento psicológico e, por serem baseadas em valores racistas, podem gerar ainda o adoecimento físico. É o que explica a psicóloga Maitê Lourenço, também neuropsicóloga pelo Centro de Diagnóstico Neuropsicológico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e colaboradora do Grupo de Trabalho de Psicologia e Relações Raciais do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. “Dentro do processo cognitivo, palavras, gestos e ações são captados e processados pelo cérebro, formando assim a concepção daquela mulher sobre si mesma de uma forma deturpada”, avalia. Ela salienta que o quadro não se limita às mulheres heterossexuais – lésbicas e bissexuais também enfrentam esse fenômeno social, bem como as transexuais.

Segundo a neuropsicóloga, adjetivos pejorativos, como “feia”, “macaca” ou frases ditas por familiares, colegas e outras pessoas como “ninguém vai te querer assim” fazem parte do contexto diário das mulheres negras, gerando sentimentos de menos valia, baixa autoestima e introspecção. Com isso, pela violência do racismo, há possibilidade de que a depressão, ansiedade e outras doenças crônicas, como asma e fibromialgia, acometam essas mulheres.

“A humilhação social também é um dos sofrimentos psíquicos causados pela solidão da mulher negra”, pontua Lourenço. “Essa mulher sente-se humilhada por perceber que não corresponde ao que é esperado para sua idade, classe social, escolaridade e ambiente familiar. Timidez excessiva, irritabilidade, ansiedade intensa, hipertensão, depressão, obesidade, uso abusivo de álcool e outras drogas também são consequências, dentre muitas outras, do processo vivido por estas mulheres”, destaca.

Clélia Prestes, mestre e doutoranda em Psicologia Social pela USP e psicóloga do Instituto AMMA Psiquê e Negritude, também discorre sobre as implicações que a solidão afetiva pode acarretar para a autoestima das mulheres negras. “Desde o nascimento e ao longo do processo identitário, a autoestima é influenciada pelos referenciais coletivos de beleza, nos quais as mulheres negras praticamente não estão representadas, apesar da maioria da população brasileira ser negra. Como resultado, no imaginário social e em concepções pessoais, pensamentos e sentimentos que tratam a diversidade com hierarquia de valores, prejudicando drasticamente a forma como mulheres negras são vistas e, consequentemente, sua autoestima e relações afetivas.”

Em sua atuação profissional, Maitê Lourenço atende mulheres que relatam o quão difícil é o estado de solidão, pois muitas vivem suas vidas inteiras de maneira solitária. “No passado não muito distante de muitas famílias, assim como a minha, essas mulheres permaneceram cuidando das famílias de outras mulheres – brancas – que tinham em seus lares maridos e filhos. E por causa do machismo, patriarcado e do capitalismo, essas mulheres tiveram que ficar distantes de seus familiares por morarem nas casas onde trabalhavam, privando-as assim de também de construir seus lares e manter maior contato com outras pessoas, já que não puderam estudar, viajar e etc”, ressalta.

De acordo com a psicóloga, a necessidade de fugir desse quadro social e evitar uma vida solitária também torna as mulheres negras vulneráveis a relacionamentos abusivos. “A própria violência doméstica também pode fazer parte das estatísticas para pontuar o que acontece com as mulheres negras, pois muitas acabam se submetendo a relacionamentos abusivos para não permanecerem sós.”

No entendimento de Clélia Prestes, embora tantas pessoas sofram com as consequências do racismo, a “psicologia tem sido omissa e conivente” com relação a ele, “na medida em que não o enfrenta”. “Ao desconsiderar os marcadores sociais da diferença como raça, gênero, orientação sexual, geração, classe, entre outros, trata como universal seres que são diversos, desconsiderando suas especificidades e impondo de forma hegemônica características particulares de grupos dominantes.”

Para Lourenço, a mídia tem uma grande responsabilidade na perpetuação dos estigmas advindos de concepções racistas. “Venho acompanhando alguns comerciais, novelas e séries brasileiras e o que mais se vê são mulheres negras em funções subalternas e, quando há núcleo familiar para ela, há no máximo filhos, a mãe dessa mulher ou um irmão. O fato da mulher negra ser representada desta forma impacta também na identificação de meninas, mulheres e das outras pessoas de que a mulher negra tem somente esse lugar a ocupar, gerando assim sofrimento psíquico e mais obstáculos, que arduamente as mulheres negras vêm tratando de transpor”.

Embora a solidão afetiva tenha, muitas vezes, consequências devastadoras para a vida das mulheres negras brasileiras, Prestes destaca que elas “não ficam apenas expostas passivamente a quadros de vulnerabilidade e solidão, mas, enquanto reagem às adversidades e resistem às opressões, acabam se fortalecendo individual e coletivamente”. “Em minha clínica, nas atuações pelo Instituto AMMA Psique e Negritude, no ativismo (movimento negro e feminismo negro) e na pesquisa, pude observar a importância da identificação positiva e das redes de mulheres negras para diminuir os efeitos e mudar o quadro de solidão, potencializando processos de resistência, superação e resiliência”, conta.

(Ilustração de capa: Monica Stewart)





Amor Afrocentrado

Luh Souza é conhecida nas redes por sua atuação contra o racismo e por ser fundadora e moderadora do grupo “Amor Afrocentrado” no Facebook, onde homens e mulheres negras se reúnem para discutir questões relacionadas ao racismo, aos relacionamentos afetivos e, caso exista a oportunidade, encontrar pares com quem possam construir relações românticas.

O termo “Amor Afrocentrado”, que se refere aos relacionamentos entre pessoas negras, é usado há muitos anos, quando Souza começou a discutir o tema da solidão da mulher negra com amigos e companheiros de militância – logo seus debates deram continuidade em outra rede social, o Orkut, ainda em 2009.

O grupo do Facebook começou como um facilitador de encontros, pois Luh Souza ouvia amigos se queixando de que não conseguiam encontrar outras pessoas negras com quem pudessem se relacionar. “Então pensei: preciso fazer um ponto em que os solteiros possam se encontrar e vamos discutindo juntos nossos problemas”, relata. Até o número que contou, o grupo teve como resultado a quantidade de 60 casais, entre eles 3 se casaram e algumas crianças nasceram dessas uniões.

A intenção do grupo era discutir o assunto exclusivamente entre pessoas negras, como um debate interno; para Luh Souza, uma medida em parte para evitar polêmicas e acusações de “racismo inverso”, mas também como resultado do desinteresse de pessoas brancas. Segundo Souza, o debate, que tem mais de uma década de proposta, sempre tentou fazer com que os homens negros refletissem sobre o companheirismo e presença das mulheres negras em suas vidas, seja como mães, irmãs e avós, ou como companheiras que sempre enfrentaram o racismo e as consequências da discriminação racial lado a lado contra os homens negros. “Se fossem pra cadeia, estivessem internados ou na escola e até mesmo no caixão, quem sofre e derruba lágrimas são as mulheres ali. E quando cresciam, por que se recusavam amar uma mulher negra? Por que eles não podiam ser românticos com ela? Quando a gente consegue colocar essas questões todas juntas na cabeça deles, há uma transformação”, relata Souza.

Mas apesar da boa vontade e do trabalho totalmente voluntário, discutir sobre a solidão da mulher negra e tentar promover relacionamentos afrocentrados não foi uma prática fácil. “Claro que apareceram os homens pilantras tentando enganar as irmãs, casados, mas sempre que eu soube, tirei do grupo, bloqueei”, afirma. Depois de alguns desentimentos e preocupações, Souza decidiu não mais moderar o grupo, deu-se por satisfeita com os objetivos alcançados e passou a orientar os integrantes para que tivessem cuidado e responsabilidade ao conhecerem novas pessoas.




Mas os desafios que surgiram não são apenas aqueles que envolvem qualquer relacionamento humano: as polêmicas em torno do assunto passaram a crescer à medida que o tema ganhou visibilidade na internet.

Luh Souza interpreta esse quadro de polêmicas crescentes como um erro estratégico. Para ela, o tema da solidão da mulher negra deveria ser um debate restrito aos grupos que militam contra o racismo. “É desgastante ter de debater racismo com ‘não negros’ e igualmente desgastante debater solidão da mulher preta abertamente. Veja que eles estão pegando isso pra nos atacar, difamar pela rede, sendo que eles sabem que se casam entre brancos em sua maioria, só que para eles isso é normal. Agora, se formos levantar a questão, aí acusam-nos de racismo inverso. Um exemplo: quantos jogadores de futebol ou artistas brancos são casados com mulheres negras? Se o amor não tem cor…”, provoca.

No entanto, Souza faz questão de frisar que a crítica não é contra os relacionamentos interraciais em si. “O amor interracial vai existir sempre”, pontua. “O que discutimos é o racismo embutido em forma de relacionamentos amorosos. Se existe o amor entre as pessoas, por que existe o recorte racial dentro desse suposto amor? Qual a causa das mulheres brancas terem duas opções? Veja que o recorte racial existe até dentro de relações homoafetivas onde uma pessoa branca tem mais chances de encontrar seu amor do que pessoas negras”, questiona.

“Então a discussão não é, e nunca deverá ser, contra a miscigenação, mas contra a regra imposta pela Teoria do Branqueamento em que mulheres negras não merecem ser amadas, já que ela é preterida por todas as etnias”, declara. De acordo com Luh Souza, mesmo mulheres negras consideradas belas e inteligentes reclamam que são preteridas. “Há algo muito errado, muito mesmo. No fundo, a frase ‘amor não tem cor’ é igual a ‘somos todos iguais’. A palavra certa seria ‘amor’ somente. Se a sociedade precisou complementar a palavra ‘amor’ com a frase ‘não tem cor’ é porque precisam se justificar e, se precisam se justificar, é porque existe um problema aí que ninguém quer saber de rever, discutir. Inventam uma frase poética pra se conformar com ela e não resolver o que é preciso, igualmente ao ‘todos somos iguais’. Pronto, de posse da poesia contida nas frases, que se dane o resto. Vamos viver em um padrão sem respeitar o grito de quem está sendo excluído dentro da sociedade por ser diferente”, protesta Souza.

Para ela, o assunto precisa ser debatido e o desequilíbrio mostrado pelas estatísticas deve ser questionado. “Mas, uma vez que os homens já fizeram suas escolhas, estão casados com brancas e têm até filhos, não podemos interferir”, afirma.


Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas

A peça Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas, escrita por Cidinha da Silva, aborda a temática da solidão da mulher negra. Segundo a autora, o texto, escrito para o coletivo teatral negro Os Crespos, foi produzido com base em 55 entrevistas com mulheres negras “de diferentes perfis: presidiárias, universitárias, catadoras de material reciclável, trabalhadoras de salões de beleza, sambistas, estrangeiras, moradoras de rua, ente outras.”

“A solidão não era um tema. O tema era afetividade entre mulheres negras”, relata Cidinha. “À medida que o tema da afetividade entre mulheres negras era investigado, a solidão gritou, em certos momentos de maneira desesperada e desesperançada. A solidão emergiu como força telúrica das entrevistas e acabou por compor boa parte dos arquétipos construídos para as personagens.”

Texto > http://www.revistaforum.com.br/semanal/a-solidao-tem-cor/